As postagens desse blog são em caráter informal e de apego ao saber popular, com seu entusiasmo, exageros, ingenuidade, acertos ou erros.

domingo, 12 de novembro de 2017

O controle social exercido pela ICOMI como estratégia de usos e ação sobre o território no Amapá, de 1960 à 1975 (Elke Daniela Rocha Nunes)

As abordagens e conceitos sobre a ICOMI, em um contexto popular, ressaltam sua importância com saudosismo e ênfase ao desenvolvimento promovido, geralmente resultantes de experiências vivenciadas nos áureos tempos da Empresa.
O direcionamento nesse livro está na valorização da investigação histórica, onde se evidenciam aspectos não tão conhecidos e que, de certa forma, surpreendem e propõem visão diferenciada.
A autora, ELKE DANIELA ROCHA NUNES, professora da UNIFAP, aborda a ICOMI na perspectiva do capitalismo que a movimentou e levou a criação de estratégias para manter o domínio na região. Um governo fechado em paralelo ao governo territorial, que apresentou uma série de influências sobre o meio social em mecanismos de controle para sua ação.

O primeiro aspecto abordado foi o resgate da história da região serrana, desvinculando da ideologia de que era um lugar abandonado, citando-se cultura extrativista, de subsistência e garimpagem presentes. Atividades que gradativamente se restabelecem, ainda que timidamente, após a saída da ICOMI, em uma história que fora obliterada.
Segundo a publicação, uma das estratégias de propaganda da Empresa foi de construir uma imagem de abandono e desocupação da região, com necessidade de sua instalação em condições irrestritas para promoção do progresso e benefícios. Nesse ponto, o Amapá é citado como mais benevolente com a Empresa do que o contrário, no ganho que teve. Chama a atenção a argumentação de que o minério explorado, de qualidade excepcional no cenário mundial, que fora escape e fortalecimento aos EUA na Guerra Fria, deveria ser equiparado em valor semelhante ao do petróleo. O que redundou para o território ficou em torno de 4% do que representava no mercado mundial.
A questão da construção das vilas operárias (Serra do Navio e Amazonas) e todo o complexo da ICOMI, na caracterização de sociedades fechadas meticulosamente controladas, é abordada no contexto da ideologia fordista. Uma maneira de potencializar o controle empresarial em prol dos ganhos, com produção em larga escala e controle sem interferências.
O recorte temporal (de maior evidencia desse aspecto) foi registrado pela autora entre 1960 a 1975, correspondendo a fundação das vilas até o momento que esse modelo começou a perder força.
Interessante que o estudo ressalta o controle em muitos e sutis (ou não) detalhes, diretamente ligados à forma de vivência no complexo. Funcionários de níveis diferentes em hierarquia eram separados para não afetar o rendimento no trabalho, por isso a separação em convivência e muitos contrastes, como as casas.
Havia rigidez para muitas coisas, até para festas informais, quando a distribuição de bebidas se dava por barril de chopp, exemplificando outra forma de estabelecer controle sobre a vida social.

Incentivos para maior eficiência incluíam premiações com bens materiais e destaque nas antigas revistas ICOMI.
O cenário é de controle social, rigidez na rotina e exploração, onde os maiores beneficiados eram funcionários vindos do sul e sudeste. A população local privilegiada era apenas dos funcionários, fechando-se essa sociedade para a realidade externa, que na prática vivia à margem do desenvolvimento aclamado. As compras restritas aos funcionários no mercado ilustra isso.
Vemos também pequenas estratégias que os funcionários usavam para fugir do controle rígido, como as compras no cartão para os colonos. Minha mãe fazia isso, como muitos serranos.

As estratégias de governo fechado também são apontadas como causa da involução das vilas após a saída da empresa, por conta da dependência gerada e pouca autonomia do governo territorial nessa região. A dependência da ICOMI impossibilitou o fortalecimento da sociedade. Basicamente, subserviente e sem conquistas em construções democráticas. Tudo era gerenciado e dominado pela empresa sem a participação popular, fadada à dependência em mecanismos pré estabelecidos.

Há referências também à degradação ambiental promovida pela Empresa, onde se destaca o estudo da contaminação no Elesbão em Santana pelos rejeitos de manganês, seja pela infração de ser estocado em larga escala em uma região habitacional ou pelo repasse como material complementar na pavimentação asfáltica.

O capítulo que mais gostei foi o quarto. Tem abordagens sobre a história e peculiaridades das Vilas de Serra do Navio e Amazonas, o Porto de Santana, a Ferrovia e circunvizinhança, como a Baixada do Ambrósio, Vila do Cachaço e Elesbão. T
ambém é excepcional o terceiro, na visão do controle social.

A obra foi publicada em 2014 pela UNIFAP. Uma leitura de descobertas e aprendizagens de maneira interessante e prazerosa.

INFORMAÇÕES DO LIVRO
Título: O controle social exercido pela ICOMI como estratégia de usos e ação sobre o território no Amapá, de 1960 à 1975
Autora: Elke Daniela Rocha Nunes
Editora: UNIFAP
Ano: 2014
Páginas: 172

SUMÁRIO
1) Contextualização da produção mineral na Amazônia
2) Estratégias de poder e apropriação do território: a ICOMI no Amapá
3) O cotidiano do trabalhador da ICOMI dentro e fora do espaço fabril: como se efetivava o controle social
4) Ação e controle para uso do território

Em valorização da informação, registro o que a autora enunciou sobre cada um dos capítulos:

"No Capítulo 1 procurou-se contextualizar os processos de ocupação da Amazônia, bem como o início da produção regional nessa região, mais enfaticamente o Projeto ICOMI no Amapá e como se deu o processo de controle e uso do manganês. Neste momento, já se inicia uma breve análise, tratando de algumas questões consideradas mais atuais.
No Capítulo 2 foram feitas análises sobre o significado do processo de implantação do empreendimento produtivo mineral no Amapá e ainda tenta demonstrar como a hierarquização resultante da combinação destas diversas formas de controle social poderia corresponder a uma estratificação das condições de inserção dos trabalhadores no processo produtivo propriamente dito.
No Capítulo 3 buscou-se fazer uma exposição de como as formas de controle social efetivadas pela ICOMI foram utilizadas como estratégias de poder junto aos seus trabalhadores, subordinando-os às estratégias, normas e modelos de comportamento mais adequados aos interesses da Empresa, para garantir a apropriação do território. Procurando mostrar como as formas de controle efetivam-se materialmente pela constituição das vilas operárias, da estrada de ferro, dos usos do território, pela instalação do porto, bem como, simbolicamente por premiações, campeonatos, publicação de periódicos entre outros.
O Capítulo 4 busca analisar a forma como a ICOMI administrava a EFA, o Porto de Santana e as vilas operárias, bem como a região das minas. Ainda esclarece a relação que foi estabelecida com essa circunvizinhança."

LEITURA INDISPENSÁVEL PARA ESTUDIOSOS
SOBRE A ICOMI NO AMAPÁ.

NA ATUAL CIRCUNSTÂNCIA, O LIVRO PODE SER CONSULTADO NA BIBLIOTECA DA UNIFAP.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Biblioteca Municipal e Ambiental de Serra do Navio

Em passagem por Serra do Navio (Outubro/2017) visitei a Biblioteca do Município e fiz alguns registros, que divulgo em caráter informal como apreciador desses locais de pesquisas.
Imagens do Google Maps
Está bem localizada (no prédio onde funcionou o restaurante dos funcionários da ICOMI) e foi inaugurada em 2005, através de uma parceria entre os governos do município e estado. Ora, Ora! Brincando com a informação, puxando para a área da leitura: um típico exemplo de que não só de pão viverá o homem... E não é?
Atende nos dois horários diurnos e tem média mensal de 40 visitantes, entre pesquisadores, turistas e a comunidade estudantil.
Não é preciso ser um grande observador para notar algumas carências, ressaltando-se a necessidade de reformas e enriquecimento do acervo de livros, rotineiramente procurado pela importância histórica da região.

Vou enviar essas publicações para os amigos de lá, assim que entrar em contato. Seria extremamente positivo se a biblioteca tivesse mais obras sobre a ICOMI e literatura amapaense. Há escassez nesse sentido. Alguns desses materiais são doações minha, de meu local de trabalho e do amigo Paulo Tarso.

Olha que legal! Encontrei esse cordel na biblioteca. Uma homenagem à Serra do Navio, por Jonas Cândido Sobral (VEJA AQUI).

Amigos da Biblioteca de Serra do Navio.
 “A leitura é para a mente o que o exercício é para o corpo.”
(Richard Steele)

CONHEÇA E VALORIZE NOSSAS BIBLIOTECAS!

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Meu Brasil Adorado (Cordel de João Cândido Sobral)


"A poesia é para o gênero humano, nestes tempos de materialismo e angústias, um recado de Deus à humanidade, lembrando que o amor existe e a ternura é o violino sublime capaz de encher de melodia as cordas suaves do coração.
Ser poeta é retirar da vida as emoções que aperfeiçoam a alma. Jonas Sobral, alma que aprendeu na sua vida adoçar com seu canto de amor...
Tenho certeza que apresento a você um poeta cuja ternura e inspiração é capaz de trazer à alma os acordes melodiosos do verso, recitando sagradas e puras emoções...
Vai, amigo Jonas! Semear o chão do poema e
colher na ternura da amizade os mais bonitos sentimentos."
Ildegardo Alencar (Apresentação)

INFORMAÇÕES DA OBRA
Título: Meu Brasil Adorado - Cordel
Autor: João Cândido Sobral
Editora: Edição do autor
Páginas: 57
Ano: 1998 (?)



Encontrei essa obra na biblioteca de Serra do Navio. Um cordel com uma singela declaração de amor por aquela terra, nos versos de Jonas Cândido Sobral. Pernambucano que, como tantos migrantes, apaixonou-se pelo lugar, a quem homenageia falando das belezas naturais, amizades e peculiaridades, sem deixar de ter a percepção crítica nas transformações que nossa querida Serra do Navio (falo como filho da terra) vem sofrendo desde o fim da ICOMI na década de 1990.
O livro misturou-se à minha nostalgia de infância e reconheci muita coisa. Cerca da metade é dedicada à Serra do Navio e o restante é uma homenagem à outros estados por onde o autor passou também: Ceará, Maranhão, Minas Gerais, Bahia e, logicamente, Pernambuco.
A melhor parte refere-se à Serra do Navio, pois as demais resumem-se a citação de lugares e cidades. Oche! Esse momento não curti.
Ah, mas na parte serrana o cordel é uma viagem legal e emotiva em seus versos simples.
Fiquei curioso em algo. O autor, entre suas amizades, cita um mecânico de nome Osvaldo que foi substituído na década de 1990. Epa! Pera lá! Isso casa certinho com informação sobre meu pai. Não dá para afirmar nada, mas cabe um: será? Ora, se não...
Vou te contar! Encontrei o cordel de curioso, fuçando as estantes da biblioteca e, diante do achado, tratei logo de providenciar a digitalização com os amigos. É uma obra antiga, que não encontramos mais em circulação.
Ah, minha Serra! Sua fama pela bela vila é coisa cada vez mais restrita às lembranças de quem viveu os áureos tempos da ICOMI, porque o cenário atual é de abandono e degradação constante e crescente de cortar o coração. Já não existe a praça como foi cantada no cordel, nem o velho MEC em sua imponência, entre outras coisas. Que pena! Da janela do automóvel, e nas andanças, vi tanta mudança, longe do que guardei em minha memória e longe do que canta o cordelista.
Algo que surpreendeu positivamente foi ver as montanhas ao longe cobertas de um verde bonito e bucólico cercando a cidade, onde eram só encostas nuas dominadas por tratores.
Gostei do Cordel! Valeu pela saudosa viagem ao passado.

"Passo um dia em Santana
Outro dia em Macapá
Logo me lembro da Serra
Dos meus amigos de lá
Distante dessa cidade
Eu não consigo ficar.
.....
Na região da Serra
Desta cidade preferida
Suas belezas naturais
Precisam ser conhecidas
Querida Serra do Navio
Jamais serás esquecida.
.....
Serra do Navio
De vila passou a cidade
O sonho do pessoal serrano
se transformou em realidade
Minha Serra do Navio
De ti levarei saudade."

Já que o momento  é  de belas lembranças de Serra do Navio,
veja aí duas imagens que justificam a melancolia no saudosismo.
Palco do MEC (Manganês Esporte Clube) em celebração do Dia das Mães no início da década de 1980. Em destaque, meu irmão Rogerson Castelo, aluno do primário, ao lado da Professora Regina (se não estiver enganado). Pensa numa professora querida e carismática junto da criançada! Tinha até quem chorasse quando descobria que não faria parte das turmas dela. Até os alunos mais bagunceiros gostavam de estudar. Ô tempo de bonitas recordações...
Palco do mesmo MEC, em registro que fiz em outubro de 2017. Nada mais a declarar...

O cordel de João Sobral está disponível para consultas na Biblioteca Municipal de Serra do Navio e Biblioteca Ambiental da SEMA em Macapá.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Bíblia do Centenário da Assembleia de Deus do Amapá (2017)

"Três gerações são passadas. Após 40 anos de ministério coloco-me na terceira geração de pastores da Assembleia de Deus no Brasil. Só pela divina graça do Senhor, aprouve a Deus reservar-me essa sublime graça de ser o pastor da Igreja Assembleia de Deus em Macapá - A Pioneira, no seu centenário.
O cajado que José de Mattos passou em 1917, gasto pelo tempo está, mas não na sua eficácia e poder. Flávio Monteiro o empunhou e passou a João Alves, este entregou a Deocleciano Cabralzinho de Assis. Deocleciano entregou o cajado a Vicente Rego Barros e este a Ananias Gomes da Silva. Ananias entregou a Otoniel Alves de Alencar, que passou o cajado a Oton Miranda de Alencar.
Após 100 anos, talvez não temos uma igreja que os pioneiros sonharam, mas uma igreja que pretendíamos sedimentar, sem nos descurar da evangelização e de fazer discípulos. No decorrer desse centenário, vimos muitas organizações multinacionais falirem. Empresas ditas sólidas desapareceram. Todavia, a Igreja Evangélica Assembleia de Deus - A Pioneira rompeu os anos e completa um século de existência no Amapá, para a glória do Deus Altíssimo.
Que essa Bíblia seja guardada para os filhos e netos, como testemunha e lembrança dos 100 anos da Assembleia de Deus em Macapá."

PR. OTON MIRANDA DE ALENCAR
(Texto de Apresentação da Bíblia)

Na noite de 03/10/2017, em Macapá, a Igreja Evangélica Assembleia de Deus - A Pioneira alcançou mais uma bênção na celebração de seu centenário. Com muita satisfação tivemos o lançamento da Bíblia comemorativa sobre a trajetória da igreja nestes cem anos.
O evento ocorreu no templo central e o encarte especial foi preparado por uma comissão de história, com texto sucinto, valorizando aspectos de destaque e fotos interessantes e inéditas para a comunidade conhecer.
Entre as históricas referências: 

- A evangelização por Clímaco Bueno Aza, realizada nesta terra com disposição heroica ante a perseguição que sofrera em 1916, onde arbitrariamente foi preso e teve as Bíblias e literatura que trazia confiscadas e queimadas;
- O relato do primeiro culto, ministrado pelo Pr José de Mattos Caravela, com o registro dos primeiros membros da igreja em Macapá;
- O batismo pentecostal de Raimunda Paula de Araújo, uma história inusitada e extraordinária pelo testemunho do judeu Leão Zagury
- Os primeiros pastores fixos, a partir da década de 1940;
- A relação dos presidentes e o pastorado de Otoniel e Oton Alencar, onde a igreja consolidou seus departamentos e se expandiu pelo Amapá há 53 anos. 
A data do lançamento foi também na data de aniversário do centenário do saudoso Pr Otoniel Alencar.
O que mais gostei foi do acervo fotográfico, especialmente da fotografia do primeiro barracão onde se instalou a congregação. Algo inédito e que, até então, despertava minha curiosidade, pois é um período de grande perseguição e perseverança na igreja, quando funcionava em condições muito humildes e sem pastores fixos, contando com a importante liderança local de Graciliano Picanço e Paulo Araujo.
Um gostinho para os irmãos, a página 23.
A edição é na versão João Ferreira de Almeida - Revista e Corrigida, que historicamente e tradicionalmente é a de maior uso na Assembleia de Deus.

Graças a Deus por toda bênção e conquista nestes cem anos! Gratidão pela oportunidade de viver o centenário! Parabéns aos irmãos que trabalharam para que se operasse essa providência divina.
A equipe da Comissão de História do Centenário foi composta por: Besaliel Rodrigues, Gedielson Oliveira, Aurea Tito, Leiliane Bruce, Kelly Rodrigues, Cláudio Roberto, Carlos Laerte, Mércia Vanessa e Anderson Oliveira, contando também com apoiadores em diferentes campos.

Um registro final. Hoje (31/10/2017) celebramos os 500 anos da Reforma Protestante. Graças também a essa disposição temos a oportunidade de ter uma Bíblia Sagrada, como essa, em mãos para abençoada leitura e estudo.

Deus seja louvado!

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Barca das Letras (Cordel de Francisco Mendes, 2017)

O livro, é como um instrumento de iniciação, na formação e caráter de nossas crianças. Em muitas Comunidades Ribeirinhas, Aldeias e Quilombos o livro é raridade! Acredite. Mas é nesses lugares, que a Barca adora navegar, distribuindo, além dos livros, sorrisos, brincadeiras, alegria, amor e, principalmente, incentivo à Leitura e manutenção da nossa cultura local.
A paga. O sorriso e o olhar de felicidade de nossos curumins.
VANDINHO 
(Comandante do barco - nos rios de Cametá)


"Vem do riso dum palhaço
O gostar pela leitura
Que nunca mostra cansaço
Mostrando boa literatura.
O Palhaço Ribeirinho
Vem com muito carinho
Ensinar nossa cultura.
.....
Livros, gibis e cordel
Uns novos, outros lidos
Massinha, lápis, papel
Para serem consumidos.
Na brincadeira de ler
O ensinar é aprender
Sem serem oprimidos. 
.....
É desenho e história
Com cantiga e leitura
Momento de vitória
Pra nossa literatura.
Brincar de ler e saber
Aprender e conhecer
Bem mais nossa cultura.
.....
Então vem com a gente
Semear a educação
Seja forte e valente
Faça parte da missão.
Seja mais um barqueiro
De espírito inteiro
Na vida desta nação."

Que bela surpresa! Duas coisas que curto: cordel paidégua e um projeto de leitura bacana.
A obra foi escrita e publicada esse ano por Francisco Mendes, poeta de Cametá (Pará), como homenagem ao Barca das Letras: um projeto de incentivo à leitura e educação idealizado por Jonas Banhos, com apoio de Rita de Cácia, percorrendo vários cantos do país desde 2008. 
INFORMAÇÕES DA OBRA
Título: Barca das Letras - Cordel
Autor: Francisco Mendes
Editora: Edição do autor
Páginas: 20
Ano: 2017
Jonas Banhos é amapaense, reside em Brasília, desenvolvendo o Barca numa agenda planejada anualmente para visitação em comunidades carentes, regiões quilombolas, vilas ribeirinhas, áreas indígenas, entre outros locais. O foco é o incentivo à leitura, distribuindo-se livros e revistas com ações paralelas de educação ambiental e cultural, contando com a participação eventual de arte educadores.
Tive a oportunidade de acompanha-los em 2011 numa experiência sensacional em região ribeirinha (LINK).
No Dia das Crianças o projeto privilegia o Amapá, e visito sempre o local de partida desde quando conheci os educadores. Reencontrei essa turma e vieram também apoiadores de Belém para a ação. O cordel foi um presente amigo.
Esses aspectos foram inspiração para a obra. É disso que trata, em linguagem simples e entusiasta à descoberta do prazer da leitura para a galera jovem, incentivando a cultura e os bons princípios da educação ambiental.
Para essa galera empenhada em fazer diferença, incentivando a educação, eu tiro sempre meu chapéu! 


O Cordel pode ser lido na Biblioteca Ambiental da SEMA em Macapá.

Conheça o Barca das Letras em

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Pregador Luo (Único Incomparável)


Pregador Luo (Único Incomparável)

Cante isso para Deus
Cante para pessoa que você ama
Ou melhor ainda
Cante para ambos

Sem você meu mundo é triste
Sem você minha alma desiste
Sem você eu me sinto perdido no mundo de solidão
Onde os rostos são estranhos e me dizem não
A vida muda de peso e eu me sinto um indefeso
Igual um afogado que não soube nadar
Apenas dois pulmões sofrendo com falta de ar
E onde quer que eu passa sua voz não escapa
Fica estreito pra mim difícil pode é suportar
Sua ausência neste mundo seria um horror
Mas porque tu tá aqui eu acredito no amor

Pra mim você é único incomparável
É porque você existe que eu não me acabo
A sua companhia é boa e agradável
Sem você a minha vida seria insuportável

Pra mim você é único incomparável
Único, único incomparável
Único, único incomparável

Sempre que eu penso que você também me ama
Minha alma desencana e toda culpa vai embora
É por isso que meu simples coração te adora
Sempre cuidou das minhas feridas
Sempre cuidou de toda minha vida
Sempre me cercou nunca parou de me guardar
E toda vez que eu erro consegue me perdoar
Eu nunca conheci ninguém que fosse assim
Tão bom e tão gentil como você é pra mim
Nosso amor teve começo mas nunca vai ter fim

Pra mim você é único incomparável
É porque você existe que eu não me acabo
A sua companhia é boa e agradável
Sem você a minha vida seria insuportável

Pra mim você é único incomparável
Único, único incomparável
Único, único incomparável

Incomparável és pra mim
Minha história de amor com você não tem fim
Se estou triste, doente ou cansado
Sua mão toca meu rosto e eu fico curado
Amor da minha vida meu bem inigualável
Você pra mim é tudo único incomparável

Por sua causa eu atravessei atmosfera
Por sua causa eu desci até o centro da terra
Peguei de volta a chave da vida e te devolvi
E ninguém vai apagar a chama que eu próprio acendi
Por amor, foi por amor somente por amor

Pra mim você é único incomparável
É porque você existe que eu não me acabo
A sua companhia é boa e agradável
Sem você a minha vida seria insuportável

Pra mim você é único incomparável
Único, único incomparável
Único, único incomparável

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Bíblia do Centenário da Assembleia de Deus de Capanema - PA (2016)

Vi essa Bíblia Comemorativa com um amigo na Escola Bíblica Dominical (EBD), sobre o Centenário da Assembleia de Deus de Capanema, e imediatamente fiquei com vontade de conhecer a história. É uma edição bonita, publicada pela Sociedade Bíblica do Brasil, com o diferencial de um encarte especial totalizando 28 páginas com informações históricas.  
Capanema é um município paraense, com população próxima de 70 mil habitantes, onde a Igreja Assembleia de Deus foi fundada em 03 de Março de 1916
A leitura foi realizada em paralelo com a história do assembleianismo no Amapá, que teve sua primeira congregação em 1917, tendo em comum alguns evangelistas e pastores.


Nos textos iniciais, pontos rotineiros no estudo de todas as congregações assembleianas:
- A visão sobre o avivamento pentecostal norte-americano no início do século XX (sob a liderança do pastor Charles Fox, em Topeka - kansas);  
- O movimento pentecostal em Los Angeles na rua Azusa (com o pastor Willian Seymour); 
- A história dos missionários suecos Gunnar Vingren e Daniel Berg na jornada peculiar e extraordinária à Belém do Pará em 1910 (que resultou na fundação da Assembleia de Deus no ano seguinte, como denominação evangélica).  
As particularidades da AD Capanema iniciaram na década de 1910, quando foi visitada por colportores como Daniel Berg e Clímaco Bueno Aza no trabalho evangelístico que faziam nas comunidades de entorno da estrada de ferro Belém-Bragança. O texto cita o ano de 1912 como uma das datas de passagem evangelística, mas a fundação da congregação em Capanema foi oficializada com o estabelecimento do primeiro pastor, Isidoro Saldanha, em 1916.
Esses pontos são parecidos ao caminhar assembleiano no Amapá, que teve a visitação evangelística de Clímaco Bueno Aza em 1916 e a fundação congregacional em 1917 com a oficialização do primeiro culto e batismos.  
A consolidação, porém, da AD em Capanema foi mais rápida e dinâmica que em Macapá, pois os pastores residiam no lugar e o primeiro templo foi inaugurado em 1921, facilitando a organização de ministérios como o Coral e Círculo de Oração. 
Em minha cidade, Macapá, por uma série de fatores, como o isolamento e dificuldade de acesso, a organização foi a passos mais lentos. Os primeiros pastores fixos se estabeleceram na década de 1940, o primeiro templo de alvenaria foi inaugurado em 1958 e a maioria dos departamentos na igreja foram organizados a partir de 1962, com a chegada do pastor Otoniel Alencar.  
O encarte traz também fotos de várias congregações de Capanema e a lista em ordem sequencial de todos os pastores da igreja pioneira, com breve histórico. 
Além do Evangelista Clímaco Bueno Aza (colportor) e Daniel Berg (que realizou visitas e batismos em minha cidade), outro missionário que tivemos em comum foi o pastor Deocleociano Cabralzinho de Assis, que presidiu a AD em Capanema em dois momentos (o intervalo foi o estabelecimento em Macapá, onde lançou a pedra fundamental para a construção do primeiro templo de alvenaria em 1948).
Gosto de estudar essas histórias especialmente quando se desenrolam no nível de curiosidades e esse foi o ponto que senti falta no encarte. Em nossa congregação, por exemplo, temos o registro dos primeiros novos convertidos, data e peculiaridades dos primeiros batismos nas águas e no Espírito Santo, e histórias atípicas edificantes para serem conhecidas pelas novas gerações (como a jornada do evangelista Clímaco Bueno Aza para aportar nessas bandas, a prisão que lhe impuseram, a reação do padre local mandando destruir as Bíblias e literatura evangelística, e o testemunho de um judeu ao ver o batismo de uma irmã no Espírito Santo em 1917). Gostaria de ver temperos como esses, de valorização à informalidades históricas no encarte. Acredito que a congregação em Capanema deva ter relatos extraordinários também.
Obviamente, conferi somente o encarte. Esse ano estou fazendo a leitura bíblica na edição com a Nova Tradução na Linguagem de Hoje. Não sei se a Bíblia Comemorativa de Capanema foi nas versões Corrigida e Atualizada de João Ferreira de Almeida. Essa que chegou em minhas mãos é na caracterização Atualizada em letra gigante (minha preferida também).
 
Ah, estou na expectativa do lançamento da Bíblia Comemorativa do Centenário da Assembleia de Deus no Amapá. Está quase saindo, e eu na vontade crescente de dar aquela saboreada...  

Parabéns aos irmãos de Capanema pelo abençoado Centenário! E todos nós, aproveitemos a boa oportunidade e bem-aventurança de ler, conhecer, aprender e viver a Palavra do Senhor através das Sagradas Escrituras. 
Graças a Deus por tudo!

  

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Projeto Jari - A Invasão Americana (Jaime Sautchuk, Horácio Carvalho e Sérgio Gusmão - 1979)

Os autores desse livro estudam e documentam uma das mais típicas manifestações da economia política da ditadura militar instalada no Brasil desde 1964. Sob vários aspectos, os dados e as análises apresentados aqui mostram como o estado foi levado a atuar em contradição com os interesses da maioria da população do país.
O Projeto Jari é bem uma expressão dessas iniciativas. Mostra, de forma bastante clara, vários aspectos muito importantes do modo pelo qual a ditadura foi levada a interferir na vida econômica e política do país, prejudicando interesses presentes e futuros da sociedade.
OCTÁVIO IANNI 
(Trecho da apresentação do livro)

INFORMAÇÕES DO LIVRO
Título: Projeto Jari: A Invasão Americana - As Multinacionais estão saqueando a Amazônia
Autores: Jaime Sautchuk, Horácio Martins de Carvalho e Sérgio Buarque de Gusmão / Apresentação de Octávio Ianni
Editora: Brasil Debates
Páginas: 110
Ano: 1979

A obra foi publicada no período da ditadura militar, em 1979, voltando a atenção para o Projeto Jari em exemplificação à uma crítica alarmante e de denúncia à ação de grandes empreendimentos estrangeiros na Amazônia. A visão é nacionalista, justificando-se em autores militantes da causa, com uma abordagem que em certos momentos radicaliza, instigando percepção de vilania e exploração indiscriminada de nosso patrimônio, como se tudo se resumisse a isso.
Interessante que a publicação coincide com o momento em que o empreendimento da Jari tomava novo fôlego em seus projetos, devido a recente instalação da fábrica de celulose no final da década de 1970. A vinda desta se deu em uma jornada épica e lendária, despertando entusiasmo ao progresso pelos vários desdobramentos associados. Coisa ainda não experimentada em uma região secularmente marcada por riquezas naturais em paralelo à exploração da natureza e do homem.
Os autores situam a questão do beneficiamento se direcionar, sobretudo, aos mega empreendimentos estrangeiros, representantes do imperialismo americano. Essa compreensão, em linhas gerais, está nos incentivos fiscais que recebiam do governo. Financiamentos que minimizam os custos, potencializando maior lucro na exploração das riquezas e da mão de obra local - o que restava para a sociedade brasileira. A caracterização é de entreguismo e uma maquiada exploração, como fora em outros tempos, nas fases do coronel José Júlio de Andrade e dos portugueses.

Daniel Keith Ludwig
Um pouco mais novo, gordo e alegre (pág. 18)
Há radicalização nesse contexto, a começar na primeira parte, em que o empresário Daniel Keith Ludwig é apresentado em uma biografia excêntrica, tendenciosa à percepção de riqueza associada à exploração de países subdesenvolvidos, contando com aliados corruptos (citando-se gângsteres e ditadores) em governos subservientes ao imperialismo americano, dispostos à arranjos favoráveis. Na política de entreguismo do governo ditador, foi citado um projeto de formação de grandes lagos, que inundariam boa parte das comunidades ribeirinhas para facilitar a entrada de mega navios no escoamento das riquezas. 

Um hotel no estilo dos conquistadores da África, em Monte Dourado. Uma fábrica que pode ser levada de volta quando acabar a matéria-prima (Pág. 47)
A abordagem dos trabalhadores e cotidiano na Jari é o segundo aspecto tratado, em prol do entendimento da visão exploratória. Citam-se privilégios aos cargos mais elevados, como exclusividade para comprar bebidas e frequentar o mais famoso clube - a Jariloca. A condição de vários trabalhadores é apresentada, destacando-se a exploração e suporte precário em alguns cotidianos (como o fornecimento de alimento aos trabalhadores da mina de caulim). A realidade do Beiradão também é mostrada em seu desenvolvimento, associado à exploração comercial e sexual. Os autores registraram até o preço do programa com as prostitutas. Muita coisa parece generalizada e fatos isolados supervalorizados para ressaltar o cenário de exploração do homem.
Área do Projeto Jari (Pág. 60)
A obra finaliza instigando a percepção dos empreendimentos estrangeiros na caracterização de proteção pelo governo, com mão de obra explorada, instalação em grandes latifúndios sem o devido reconhecimento do tamanho real (para a fuga dos impostos), tendo política contra a reforma agrária, degradação ambiental, prejuízo aos povos da floresta e recebimento de financiamentos governamentais que nem sempre resultavam em beneficiamentos à região. Nesse último aspecto o livro cita a história de um empresário estrangeiro no Pará, que recebia incentivos da SUDAM, usou técnicas de guerra para desocupar a região para a posse e nela desenvolveu apenas atividade madeireira, não planejada no incentivo governamental que recebia. 
Essa é a Amazônia vista na abordagem do livro sob ação estrangeira. É muito coerente e de importantes reflexões, mas também rolou exagero sensacionalista. O Projeto Jari teve uma sucessão de fracassos que não foram abordados e que estavam em andamento. Não se resume a isso, mas foi o que entendi. 
O dinheiro do Imposto de Renda, manipulado pela SUDAM,
 também engorda as finanças da Jari (Pág. 76).
O povo do Jari é pobre. As casas do Beiradão são construídas
 sobre o rio ou terrenos alagadiços (Pág. 28).

É mais uma importante obra que pode ser consultada na Biblioteca Ambiental da SEMA em Macapá.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

...E o branco chegou com a cruz e a espada (Pe. José Oscar Beozzo, 1987)

"O título desse livro lembra-nos a sorte triste e cruel de milhões de indígenas a partir do momento em que os espanhóis e portugueses aportaram nestas plagas. 500 anos de sangue derramado, de culturas agredidas, de povos crucificados: a brutal história de séculos de genocídio e etnocídio. Havia, é verdade, também quem defendesse estes povos dando prova de amor maior, mas nem por isso o curso da história mudou. O holocausto prosseguiu através dos séculos."
ERWIN KRAUTLER 
(Trecho do texto de apresentação no livro)

Publicação de 1987, do Pe. José Oscar Beozzo, com abordagem sobre a colonização do Brasil e implicações para povos indígenas e afrodescendentes. Resulta de curso de história ministrado pelo autor na cidade de Belém, em 1985, relacionado ao CIMI (Conselho Indigenista Missionário), dando ênfase à Região Norte.  
INFORMAÇÕES DO LIVRO
Título: E o branco chegou com a cruz e a espada
Autor: Pe. José Oscar Beozzo
Editora: CIMI Norte II 
Páginas: 199
Ano: 1987


A visão sobre o indígena é a que tem maior destaque no livro, e o aspecto que se apresenta de forma mais interessante é a divisão dessa história em determinadas fases.
- A primeira vai da 1500 à 1755. Período do descobrimento, quando o Frei Henrique de Coimbra celebrou a primeira missa, até a expulsão dos jesuítas e de outros missionários dos aldeamentos indígenas. Os textos ressaltam a ação de catequese e uso da mão de obra desses povos em um sistema de padroado da igreja pelo estado.
- De 1755 à 1910. Período marcado pela administração de leigos responsáveis pelas aldeias, havendo abandono e violência gradual com a ocupação das terras no Norte. A Cabanagem é citada nesse contexto com o indígena unindo forças às massas desprestigiadas pelo estado.
- 1910 à 1971. Fase em que os indígenas são objeto de atuação do estado, com políticas mais específicas, primeiro através do SPI (Serviço de Proteção ao Índio) e depois pela FUNAI (em substituição ao SPI). Vemos também a ação de  missões ligadas à Igreja Católica e Evangélica. Nessa fase ocorreu a ditadura militar e reformulações no catolicismo através do Concílio do Vaticano II (ambos na década de 1960) com desdobramentos impactantes para os povos indígenas de forma positiva ou não.
- De 1972 à 1985. Essa fase iniciou com a criação do CIMI (Conselho Indigenista Missionário) em um contexto de autoritarismo e luta por direitos diante dos planos de desenvolvimento no Norte pelo governo militar. A ação é marcada por impactos aos povos indígenas, através de rodovias sem planejamento ambiental, criação de latifúndios, pecuária invasiva, incentivos fiscais para empreendimentos estrangeiros sem estudos específicos, desmatamento rotineiro, poluição, violência no campo, entre outros aspectos. O CIMI, reformulado pela modernização católica resultante do Concílio do Vaticano II, engajou-se em lutas sociais. O projeto Calha Norte foi citado como referencial dos planos do governo nos desdobramentos citados.

Igreja e Estado operando em conjunto para cativar o índio (Ilustração do livro)
Na questão do negro os pontos que chamaram mais atenção foram:
- O posicionamento da igreja ante a escravidão: No sistema de padroado pelo estado, com os padres como funcionários públicos, havia conivência com absurdos, citando-se o Padre Antônio Vieira, que via a escravidão como algo bom para o negro em face das desgraças em seu continente, como se fossem os culpados e assim o trabalho forçado no nosso país era como um purgatório para eles.
- Outra coisa curiosa e desconhecida era o planejamento dos escravagistas em adquirir escravos de diferentes etnias, numa forma de impedir união e fortalecimento. Muitas vezes eram de povos inimigos que, segundo o texto, delatavam as partes contrárias que planejavam fugir.

A escravidão no Brasil (Ilustração do livro)
Nas abordagens finais o autor cita o Concílio do Vaticano II e disposições que aproximaram missionários com a Teologia da Libertação e envolvimento com questões sociais, como o engajamento nas CEBs (Comunidade Eclesiais de Base).
Engajamento católico nas CEBs (Ilustração do livro)
A obra preservar os textos conforme a exposição oral nos cursos, e essa informalidade, que visa a facilitação no entendimento, por outro lado é o aspecto que não curti no livro. Passa a percepção de uma série de discursos e reportagens como um amontoado de informações, faltando uma junção metodológica entre elas, um elo de continuidade, que certamente foram mencionados no curso, mas que não se fazem notar na publicação.


Disponibilizado para consultas
na Biblioteca Ambiental da SEMA em Macapá 
ou nesse LINK.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

A ocupação desordenada da Amazônia e seus efeitos econômicos, sociais e ecológicos (Juraci Perez Magalhães)

Interessante que o desenvolvimento sustentável, apesar de não ser um termo que apareça literalmente nessa obra, está implícito e é o direcionamento no entendimento à fatores que desencadearam uma desordem na Amazônia (pelo descaso) e, principalmente, se reflete nas projeções e políticas que se adequam ao cenário ambiental (ou deveriam).
A obra é de 1990, onde o termo era novo, se consolidando na ECO-92, mas a percepção sobre ele vinha de lutas sindicais dos seringueiros que propunham a formação de reservas extrativistas em uma dinâmica inovadora para o desenvolvimento na Amazônia.
Esse cenário agitava o contexto da publicação, principalmente pela recente morte do Chico Mendes, e a proposta que o autor apresentou foi um estudo sobre a ocupação da Amazônia, percebendo os desajustes que levaram à desordem no progresso e entendendo as medidas necessárias para as transformações buscadas.
INFORMAÇÕES DO LIVRO
Título: A ocupação desordenada da Amazônia e seus efeitos econômicos, sociais e ecológicos
Autor: Juraci Perez Magalhães
Editora: Gráfica e Editora Completa Ltda 
Páginas: 112 
Ano: 1990
O primeiro momento vê a ocupação da Amazônia em diferentes fases históricas, tendo em comum fracassos, citando-se a política ocupacional incentivada pelo Marquês de Pombal no século XVIII, o projeto da Fordlândia no Pará para extração do látex, a sedução à migrantes nordestinos como soldados da borracha, as políticas de incentivos fiscais para atrair empreendimentos industriais e desenvolvimento de pecuária no governo militar, e o maior exemplo de fracasso empresarial na Amazônia (o Projeto Jari idealizado por Ludwig). Todos esses momentos atraíram muitas pessoas e o insucesso nessa ocupação, na caracterização de desordem, foi determinado pela ausência de técnicas adequadas para a realidade ambiental. 
Os capítulos II, III e IV exemplificam essa questão, cheia de falhas e desacertos, focando especificamente o desenvolvimento incentivado no governo militar. Coisas que, relativamente, foram vistas em outros momentos também. Havia grandes extensões de terras desocupadas e em cima disso foram criadas políticas e instituições para atrair e apoiar empreendimentos. Foi o caso da SUDAM (Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia) e do I PND (Plano Nacional de Desenvolvimento). Este último é tratado como um dos maiores incentivadores de fracassos (e não à toa). A política era extremamente ufanista e ousada, se prestando à resolver a situação do nordestino afligido pela seca, colocando-o em uma região rica em recursos. Slogans como esse eram comuns. No suporte, a idealização de rodovias que integrariam a Amazônia (como a Transamazônica, a Belém-Brasília e a Perimetral Norte), o incentivo para o estabelecimento da pecuária e os financiamentos facilitados para a entrada de empreendimentos.
Muito entusiasmo e pouco investimento na prospecção da região para identificar manejo adequado, que redundaram em fracassos, comprovando-se em pouca fertilidade do solo, várias pragas agrícolas, degradação ambiental através do desmatamento, impactos sobre a fauna e flora, choque com os povos nativos, descaso com a vocação potencial da região, vinda de aventureiros que aproveitaram os incentivos fiscais para enriquecimento, formação de grandes latifúndios, poluição, violência no campo, insucesso em culturas introduzidas, desenvolvimento de pecuária por sulistas em regiões com história extrativista onde os fazendeiros descartaram o manejo e combateram as comunidades assentadas nessa cultura, alteração de ciclos hidrológicos, efeitos sobre o clima e microclima, danos ao solo, desertificação, entre outros aspectos.
 
O capítulo V explana sobre a região em diferentes contrastes, representados pelo homem, pelos recursos naturais e pela necessidade de preservação, com desdobramentos meio. Mostram-se efeitos nocivos das ações do PND sem um adequado planejamento. Também são norteados fatores necessários para a ocupação organizada e progresso, que deveriam preservar recursos naturais renováveis, fixar o homem no campo evitando o desemprego, respeitar a vocação regional e evitar o desmatamento. 
A problemática de vários povos, principalmente os indígenas, é levantada em considerações impactantes.
Esses aspectos de visão sobre o homem e sobre a natureza em suas peculiaridades foram ressaltados para direcionamento no desenvolvimento e ocupação.
 
A obra finaliza com mitos sobre a Amazônia, refutados individualmente nos seguintes pontos: sobre a Amazônia ser o pulmão do mundo, ter solo fértil em face de sua opulência, ser intocável ou a ocupação estar ocorrendo racionalmente.
Muito interessante, apontando caminhos para a sustentabilidade que respeitem os elementos naturais e o homem nesse meio.
Vou deixar em registro final uma citação da obra, extraída dos estudos de Euclides da Cunha, logo no começo do livro, de que o homem na Amazônia é como um intruso impertinente. Em termos práticos significa dizer que ele viu a floresta como uma desordem e procurou organizá-la a seu modo. Foi o que fez políticas arcaicas como os primeiros PNDs e ainda tem acontecido nos dias atuais.
 
O livro faz um passeio por essas coisas, chamando atenção com uma caracterização pioneira em sua época pelas discussões provocadas. A única coisa que não curti foi a metodologia conservadora, da época de publicação, sem um mínimo de ilustração além das capas.

Disponível para consultas 
na Biblioteca Ambiental da SEMA 
em Macapá