As postagens desse blog são em caráter informal e de apego ao saber popular, com seu entusiasmo, exageros, ingenuidade, acertos ou erros.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Pretérito mais que perfeiro (HQ de Otoniel Oliveira e outros quadrinistas paraenses, 2015)

Encontrei essa HQ aleatoriamente em uma livraria, no que apresentou-se muito interessante e instigante, elaborada por uma talentosa turma do Pará.

O quadrinho Pretérito mais que perfeito, foi lançado em 2015 em comemoração aos 400 anos de Belém. A idealização é de Otoniel de Oliveira e conta com diversos artistas regionais convidados.
Apresenta 15 historietas interligadas (de duas páginas) que se passam em um banco da Praça da República, em Belém, entre os anos 1869 e 2032. Apesar de independentes, cada história termina com um questionamento que é respondido na história seguinte, formando uma trama maior.
O enredo, de Otoniel e Petrônio Medeiros, é constituído por episódios históricos (como escravidão, a era da borracha, tenentismo, ditadura, Collor e 'Jornadas de Junho', como ficaram conhecidos os protestos de 2013) e trata também de questões culturais (como o Círio de Nazaré e sobre a escassez de água em 2032).
Em cada capítulo ou episódio, uma composição gráfica distinta inspirada em um movimento artístico e quadrinista renomado. Entre as referências estão Impressionismo, Art Nouveau, Pop Art, Futurismo, Cyberpunk Distópico, Underground e outros. E entre os artistas referenciados estão Will Eisner, Angelo Agostini, Moebius, Pollock, Jack Kirby, citando apenas alguns.
No índice da obra é informado o ano em que se passa a história, o autor e as técnicas de elaboração como, por exemplo, retícula digital e aquarela.
(Texto de Beatriz Bento, publicado em jornalempoderado.com.br, onde encontramos mais informações)

Título: Pretérito mais que perfeito
Roteiro: Otoniel Oliveira e Petrônio Medeiros
Arte: Otoniel Oliveira, Andrei Miralha, Carlos Paul, Diogo Lima, Rafa Marc, Volney Nazareno, Emmanuel Thomaz, Adriana Abreu, Dorival Moraes e Rosiani Olívia
Editora: Independente (Edição do Autor)
Páginas: 72
Ano do lançamento: Fevereiro de 2015

Ilustração da terceira história (Que vem a ser a beleza?), que se passa em 1905, período que valoriza a Belle Epoque. O estilo é baseado na Art Nouveau e o artista inspirador é Winsor MacCayOuça a música para o contexto NESTE LINK
Ilustração da quinta história (O que falta?), ambientada em julho de 1924. O Movimento Tenentista é o pano de fundo, com estilo gráfico em Art Decó e referência no artista Hal Foster. Ouça a música para o contexto NESTE LINK.

A HQ tem uma proposta espetacular, com histórias distintas que se unem para um retrato histórico da sociedade em Belém. Isso pode ser contado de várias maneiras, mas o caminho escolhido na HQ é instigante e inovador na região. Os autores selecionaram um lugar, a Praça da República, e com essa centralização, fazem um passeio através dos tempos, mostrando coisas curiosas e históricas em 15 momentos, iniciando em 1869 e findando em 2032. Há uma pesquisa cuidadosa para cada período, no retrato de época e concepção artística em vigência. Além dos quadrinhos, tem o texto curioso da pesquisa no final. Obviamente, o momento futurista é um devaneio, mas baseado em projeções atuais.
Me veio a mente um momento que poderia ser aproveitado na HQ: a chegada dos missionários suecos Gunar Vingren e Daniel Berg em Belém, no ano de 1910. Após o desembarque, caminharam pela cidade, sem conhecer nada, apenas sentindo-se vocacionados a uma missão, chegando até essa praça, onde os caminhos começaram a se abrir para a obra que fundaram no ano seguinte - a Igreja Evangélica Assembleia de Deus - iniciando o movimento pentecostal no hemisfério sul. Tem até um banco na praça que os homenageia.
Pretérito Mais Que Perfeito é uma HQ legal, instigante, reveladora e das melhores que li na região. O passado revisto e recontado várias vezes.
Última observação, a HQ tem trilha sonora para embalar essa viagem, com 15 faixas concebidas com cuidado, inspiradas no contexto e estética de época, disponibilizadas pelos autores na net, para a galera curtir. OUÇA AQUI
Por essas e outras, uma obra-prima da Amazônia.
(Texto de Rogério Castelo no skoob.com.br)

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Revista ICOMI Notícias nº 17 (1965)

Edição de Maio de 1965. Entre as reportagens:
- Novos decenalistas premiados: a empresa dava um relógio para os funcionários que completavam 10 anos de serviço. A edição cita e mostra a foto de 58 decenalistas.
- Minerações na Libéria e Gabão: o professor Iphygenio Soares Coelho relata para a ICOMI Notícias observações colhidas em visita à Àfrica e Índia, por ocasião do XXII Congresso Internacional de Geologia, realizado em Nova Deli. O professor visitou minas de minério de ferro e manganês na Libéria, Gana e Gabão. É a principal reportagem da edição, tendo seis páginas com impressões e especificações técnicas sobre as visitas.
- Castanheira - uma fonte de riqueza: texto de parecer botânico e econômico.
- Rachel de Queiroz - Viagem à Amazônia: artigo publicado na revista O Cruzeiro, de 08/05/1965, sobre as impressões da escritora na visita a ICOMI no Amapá.
- Funcionários do mês: Natan Soares do Nascimento / Washington Alves Ferreira - "Pará".
- O craque do mês: Getúlio Barbosa dos Santos - "Bacuri".



Algumas imagens: 

Vicente de Souza Filho, iniciador da escola de futebol em Serra do Navio,
com grupo de jovens desportistas serranos.
Usina de Beneficiamento de Serra do Navio. 
 Curso de Solda em Serra do Navio.
 Crianças aprendendo a nadar, no Santana. 
Ilustração na capa e contracapa da edição, destacando o símbolo da empresa.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

"O Peregrino" e "A Peregrina" (John Bunyan, século XVII)

Você já ouviu falar sobre esses dois livros? Te convido para conhecê-los!

O Peregrino
Li algumas vezes (a primeira em 1990, de uma vez só) e à cada leitura há incentivo e edificação na vida cristã. Foi publicado em 1678 e tem atravessado os séculos com mensagem atual e instigante, transformando-se em um dos mais conhecidos clássicos no meio cristão.
A caracterização é o anuncio do Evangelho através de uma parábola sobre o significado de ser cristão, tendo riqueza de detalhes em aspectos corriqueiros nessa jornada. Mostra ensinamentos bíblicos referentes à situações diversas (como a Porta e Caminho Estreitos, o Vale da sombra da morte e a Armadura de Deus) e personagens que se encontra nesse caminho ou que estamos sujeitos a nos tornar (o Cristão, o Vacilante, o Fiel, o Sábio-segundo-o-mundo, entre outros).
A história nasceu de um sonho quando o autor estava encarcerado por perseguição na Inglaterra, em razão da pregação do Evangelho.
Algumas considerações, para concordar ou não...
Na jornada do Cristão, entre os três peregrinos que chegaram à Cidade Celestial (Cristão, Fiel e Esperança) o que mostrou maior maturidade em sua vida, na minha visão, foi o Fiel. A receptividade ao Evangelho, zelo e postura parecem mais consistentes. É como uma pessoa que recebe o Senhor com muito ardor e segue nesse caminho com a chama do primeiro amor sempre acesa. Foi o único martirizado na história (talvez apenas ele suportasse essa tribulação com fé em Cristo naquele momento, o que se deseja evidenciar como exemplo de perseverança).
Cristão é um pouco débil e tem crescimento lento (mas contínuo), aprendendo com seus erros também. Passa a imagem de uma pessoa que quer seguir a Cristo, mas é cheia de fraquezas em pontos que vão aos poucos sendo fortalecidos e trabalhados por Deus. É decidido, o que é essencial para esse processo. Ao longo da jornada percebemos seu crescimento, que foi do Pântano da Dúvida (onde tinha só uma noção superficial do Evangelho) ao enfrentamento de feroz inimigo como o Apolião (tendo tomado posse das ferramentas que o Senhor ensinou em sua Palavra, antes desconhecidas, quando vivia algo superficial e de aparências na cristandade).
Já o Esperança é alguém que canaliza tudo para o Senhor, sendo bastante emotivo. Parece o mais sentimental e isso pode ser um perigo como guia, pois na vida cristã a determinação não pode se firmar apenas na emoção, precisando, às vezes, de uma decisão árdua e resoluta. Por isso ele e Cristão caminharam juntos para a cidade, fortalecendo-se mutuamente nas horas mais difíceis. Comunhão é importante e precisamos desenvolver com a igreja.
Muitos personagens são descritos e vou deixar em registro o Loquaz, a Sensualidade, o Interesse-próprio e o Sábio-segundo-o-mundo, que rotineiramente encontrarmos. Podemos ceder a seus conselhos e nos transformar neles facilmente quando não há vigilância. Representam a hipocrisia, a entrega ao prazer fora dos propósitos divinos, o egoísmo e a rejeição à Palavra de Deus.
Com certeza tem muito mais coisas para serem reveladas. Isso foi uma interpretação minha, como você vai ter as suas pós leitura.

A Peregrina
Novidade que descobri à pouco tempo e foi a segunda vez que li. Fala da esposa do Cristão, que tinha decidido não trilhar o caminho do Evangelho e permanecer na Cidade da Destruição. Não tem a diversidade de personagens ou situações do primeiro livro, mas apresenta peculiaridades que só agora comecei a notar.
Um diferencial legal é que a caminhada é ao lado dos parentes (os filhos), trazendo a percepção de vida familiar. O Peregrino concentra-se na individualidade, enquanto essa obra mostra um sentido de comunidade na vivência cristã. Além dos quatro filhos, o grupo vai crescendo com outros membros, que são diferenciados, mas todos peregrinos no mesmo propósito. São eles: Grande-Coração, Firmeza, Misericórdia, Valente-pela-Palavra, Integridade, Mente-Fraca, Quase-Desistindo, Desalento e Excessiva-Timidez. 
A questão de vida familiar e irmandade se fortalece no seguinte: Cristã estava viúva e a personagem Grande-Coração lembra e projeta a figura do pai (até então ausente). Tive essa sensação, pois assemelha-se ao que ensina as Sagradas Escrituras na abordagem da família. Ele ama a cada um indistintamente, cuida, protege, ajuda, aconselha, caminha dando exemplo e é uma referência.
A vida familiar se revela também nas dificuldades que Cristã passou com os filhos (como o jovem que ficou doente por não ter vigilância ou experiência em algo atrativo no caminho, sendo seduzido... e qual pai não está sujeito a sofrer pelos filhos em suas más escolhas), sendo amparado e fortalecido nesse momento de fraqueza. A história tem também casamento, peregrinando o caminho. Não lhe parece que valoriza e ensina sobre família?
A questão comunitária tem seus aspectos ressaltados, afinal, é um tipo de família também.  Quando li O Peregrino fiquei pensando se algumas daquelas personagens negativas, encontradas ao longo caminho, não poderiam ser transformadas, pois Cristão era um homem em suas características próprias, positivas ou não, sendo trabalhado por Deus para crescimento na fé. Outros não poderiam enveredar nisso com suas fraquezas? Sim e acompanharam Cristão por um tempo, mas desistiram e entregaram os pontos firmados em conceitos pessoais, de maneira que apenas Cristão, Fiel e Esperança (todos peregrinos no caminho em Cristo) atingiram o objetivo.
A Peregrina mostra o que desejei ver, pessoas que em suas debilidades permaneceram no caminho em busca do objetivo, mas para isso contando com a ajuda fundamental dos outros peregrinos. De início eram os últimos na marcha, mas Grande-Coração os trouxe para perto de si e auxiliava a cada um em suas debilidades. As lutas comuns na espiritualidade foram vencidas por todos. Qual a razão disso? Auxílio, ajuda, comunhão... com Cristo e com a igreja.
Peculiaridades do livro:
- Há uma personagem no caminho chamado Timorato (presente também no outro). Minha observação em relação a ela é a necessidade de atualização da linguagem. Nunca tinha topado com essa palavra e na busca do significado descobri que exprime receio ou medo, covardia. Então é um medroso em seu contexto, o que tem que ser traduzido para o leitor.
- Misericórdia foi uma jovem que iniciou a jornada junto com Cristã. Ela é muito sentimental e até receosa, mas deixou um exemplo de confiança no Senhor antes de se deixar dominar por seus medos. Clamemos a misericórdia de Deus e perseveremos. Foi o que fez. A vitória nos propósitos de Deus é certa! Ah, não poderia deixar de registrar que Misericórdia casou com um dos filhos de Cristã e essa amizade lembra Noemi e Rute.
- Que felicidade ver que Mente-Fraca e outros com nomes nada nobres alcançaram o objetivo! Pensei que tinham desistido, pois em vários momentos não são focados pelo narrador e depois surgem de novo, com suas debilidades mas contínuos. Ressalto que, apesar do nome, coisa que os estereotipou, foram transformados e persistiam. Assim, foram vitoriosos quando carregavam um fardo que os estimulava à desistência, designando-os derrotados. Era algo que os caracterizava e como ficaram conhecidos na vida pregressa, porém, com Cristo, isso não se tornou em âncora nas suas vidas. A comunhão e auxílio que receberam e viveram foram fundamentais. 
Novamente vale o registro, a obra vai além do que apresentei.

Livros edificantes ao coração.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Revista ICOMI Notícias Nº 16 (1965)

Publicada em Abril de 1965. Destaques para:
- Calçoene - Novo Eldorado: principal reportagem da revista, apresentando Calçoene em suas peculiaridades e potencialidades. Em paralelo a história de riquezas, a realidade do contexto de época era de uma localidade sem luz elétrica e sem distração de qualquer espécie. Segundo o texto, Calçoene só tinha vida diurna e o principal meio de transporte era o burro. 
- Ministro Thibau no TFA: primeiro Ministro da Pasta de Minas e Energia a visitar o Amapá. Na ocasião, encontrou-se com o Governador Luiz Mendes da Silva, em Macapá, onde foram discutidas considerações sobre a Usina Hidrelétrica Coaracy Nunes com aproveitamento da Cachoeira do Paredão.
- MPF - novas gerações fortes: o texto fala da Multi Purpose Food, organização filantrópica voltada ao combate da fome e desnutrição, a partir da distribuição de suplemento alimentar (uma farinha desengordurada feita de soja enriquecida com sais e vitaminas, conhecida como MPF).
- Funcionários do mês: Geremias Wiatt / José Antônio Alves da Silva.
- Carnaval em Macapá e nas vilas da ICOMI: registro dos festejos em um histórico álbum fotográfico.
- Rachel de Queiroz confiante no progresso do Amapá: nota sobre a passagem da escritora no Amapá a convite da ICOMI.
- O craque do mês: Raimundo Aragão Barbosa - "Aragãozinho".


Imagens da revista:

Cerimônia de hasteamento da bandeira, na Escola de Serra do Navio, durante a passagem do Ministro Mauro Thibau.
 Professora Walmira Maceira faz uma demonstração prática do uso de MPF.
 Nova frota de automóveis da ICOMI, no pátio da Companhia em Santana.
Garimpeiro em sua atividade de rotina em Calçoene. A água barrenta, acumulada em um igarapé artificial, é posteriormente bateada.
Bateria da Escola de Samba Piratas da Batucada se apresentando no salão do Santana Esporte Clube.

terça-feira, 24 de abril de 2018

Coleção Sítio do Picapau Amarelo - Monteiro Lobato 6

Gosto tanto do Sítio que me empolgo em querer registrar alguma coisa. Motivações não faltam, baseadas em leituras prazerosas na infância e também como incentivo para descobertas, que podem ser experiências positivas e instigantes, à luz de um acompanhamento pedagógico. Em parecer singelo, vamos conhecer mais dois livros dessa coleção.

Fábulas
O livro é de 1922 e a abordagem valoriza as fábulas, contadas por Dona Benta em gostosas narrativas para a turminha. Estão em torno de setenta, sendo a grande maioria de La Fontaine e Esopo, mas tem também da cachola de Dona Benta e da sabedoria popular. Ao final de cada, no estímulo almejado, a turminha se expressa no que entendeu, concordou ou não, manifestando seu agrado ou desagrado, estendendo a aprendizagens no convívio de sua realidade. São contadas em paralelo a torneirinha de asneiras da Emília (às vezes, refinada esperteza), pitacos científicos do Visconde, percepções ingênuas da Tia Nastácia e romantismo aventureiro e sonhador de Pedrinho e Narizinho.
A que mais gosto é a do Velho, o menino e a mulinha. Uma graça, cheia de ironia em relação a indefinições na vida.
É, mas as de maior impacto são as que exacerbam a injustiça ou opressão do forte sobre o fraco, tipo O Lobo e o Cordeiro, O julgamento da ovelha e Liga das nações. Essa e outras vão em um contexto político, que Lobato faz a turminha se deparar, refletir e manifestar o que pensa.
No final da leitura percebemos um aspecto interessante: de que algo já feito não esgota a possibilidade de explorações diferentes e legais. Não foi o que Lobato fez recontando histórias a seu modo para as crianças?

História do mundo para as crianças
Belíssima obra! Extraordinária pelas informações e detalhamentos em um passeio curioso pela história da humanidade, contada em serões de Dona Benta com a turminha. O autor fala de civilizações, personagens destacados, arte, ciência, política, modernidade, filosofia, religião e outros aspectos. Aquela dinâmica conhecida se repete, da turminha interagir com as informações.
Foi publicada em 1933, mas certamente foi retocada, por descrever fatos ocorridos na década seguinte, como a Segunda Guerra Mundial e a explosão da bomba atômica em Hiroshima.
Tem tanta coisa interessante, no sentido de descobertas e fomentar discussões, que teria despertado incômodo ao Estado Novo e a Igreja. Simplesmente por Dona Benta falar contra a opressão do povo, Lobato em certo momento expor simpatia ao antigo regime monárquico e a turminha discutir pontos relacionados à religiosidade, que tem sua dose polêmica, como as Cruzadas, a Inquisição, a ruptura no Cristianismo, massacres entre católicos e protestantes, além da valorização da teoria evolucionista de Darwin.
Outra coisa importante é que o autor novamente trouxe para a perspectiva dos picapaus algo já estabelecido no contexto de época: o livro Child's History of the World (História do mundo para crianças), publicado em 1924 pelo americano V. M. Hillyer, que rapidamente tinha se tornado importante obra da literatura infantil. Lobato não omite a inspiração e cita o livro no início, quando Dona Benta o recebeu pelo correio, ficou instigada e resolveu dividir esse saber com a garotada. Ah, mas garanto que tem muito marmanjo que vai se surpreender também com essa valorosa publicação.
Claro que tem o toque pessoal no olhar abrasileirado e, partindo ou não do autor, gostei dos sutis momentos de valorização a saberes em sua etimologia ou correlação com momento histórico. Como a origem de palavras como estoicismo (quando falou-se da Grécia antiga) ou protestante (no contexto abordado em que gerou-se essa denominação para reformadores na igreja).
A parte do Darwinismo (que não creio) é o pontapé inicial das histórias de Dona Benta e daí vamos avançando em diversos momentos da história da humanidade. Egito, Grécia, Israel, Mesopotâmia, Roma, Idade Média, Navegações, e só estou citando alguns...
Em resenhas anteriores lamentei a ausência e viajei em como seriam incursões de Lobato pela Literatura Bíblica. E não é que esse livro tem! Específicas em pelo menos dois capítulos (sobre a história dos Judeus, conforme o Antigo Testamento, e sobre Jesus Cristo nos Evangelhos). Provavelmente Lobato apenas reproduziu a obra de Hillyer, mas são suas as impressões na turminha, principalmente na reflexão sobre a história da cristandade. Senti o autor desiludido por conta do comportamento humano, parecendo esse aspecto o que o direcionou em sua visão sobre Deus. Os relatos bíblicos estão um tanto borocoxôs. O autor descreve contentando-se e dando atenção só para o elemento humano. A presença de Deus em suas ações não é valorizada. Só uma vez aparece a palavra Senhor. Bem se vê percepções e conclusões marcantes a partir da centralização do homem como norteador de vida. 
Falando em reações, os picapaus demonstram revolta contra as injustiças e empolgam-se com descobertas e aprendizagens. Passei a ter outra imagem sobre Narizinho. Emília, Pedrinho e Visconde parecem ver as coisas no que gostariam de vivenciar, só isso (pelo prazer da aventura, corrigir algo devido visão incômoda, testemunhar fatos importantes... tudo num plano com egocentrismo, sem ser ruim). Mas com Narizinho a coisa é diferente. A menina parece demonstrar percepção mais humanista, de ver as coisas num plano onde se insere e sofre com a injustiça, tendo um olhar mais abrangente, de valorização do outro e não essencialmente de sua vontade. O livro sugestiona isso em seu perfil. Em vários momentos a menina quase desmaia de revolta, passando mal, e Dona Benta tem que interromper a história para seu restabelecimento diante do impacto que sofrera. Aconteceu com as narrativas sobre o Nero (ao saber de suas perversidades), na descoberta da mitologia dos Fenícios (sobre o deus Moloque e Asterate, que recebiam sacrifícios de crianças - citados também na Bíblia), na história da escravidão (onde Lobato manifesta seu repúdio, referenciando como um cancro na humanidade), sobre Joana D'Arc e outros momentos. É dela que partem sempre as observações mais interessantes ao lado de Dona Benta.
Vou deixar em registro também o capítulo A era dos milagres, apenas por ter a primeira parte rotineiramente reproduzida em livros escolares (pelo menos no meu tempo de estudante).
O Lobato era adepto do comunismo? Não sei, mas tem capítulo em que parece criar uma expectativa com a Revolução Russa. O texto fala de dar tempo para ver resultados, se positivos ou não (Ora! Comunismo só oprimiu, roubou, torturou e matou, em todas as experiências mundo afora).
Enfim, uma viagem sensacional. Esse é clássico e uma experiência muito positiva e instigante na leitura.

Essas obras podem ser encontradas, em geral, nas Bibliotecas Públicas. Vale muito a leitura!
Em Macapá, estão disponíveis na
Biblioteca Pública Elcy Lacerda.
Quem sabe na Biblioteca de sua escola também...
Que tal, heim!

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Revista ICOMI Notícias Nº 14 (1965)

Edição de Fevereiro de 1965, destacando:
- Empresa adota símbolo: a história do famoso octógono que se tornou a logomarca da ICOMI, idealizado por Aloísio Magalhães.
- Aeromodelismo em Santana: Hildebrando Castelo Branco lançou a prática na Vila Amazonas.
- Ainda o Oiapoque: II reportagem sobre o Oiapoque, destacando povos indígenas em seu cotidiano. Um drama que ocorria era a presença da malária e sarampo. Entre os Palikunas o texto registra a morte de 64 pessoas em menos de 15 dias no ano de 1960. Outra referência que achei curiosa foi sobre as ciganas no rio Urucauá. É uma ave de beleza inusitada e em 2009, visitando essa região, tive uma das visões mais fantásticas nesse rio, quando navegamos no meio de aningais em que estavam às centenas pela manhã, em um espetáculo único e de rara beleza em seu voo quase de câmara lenta sobre nossas cabeças.
- IAA aprova usina de açúcar: a Comissão Executiva do Instituto do Açúcar e do Álcool havia homologado, no início deste mês, os primeiros projetos de novas usinas de açúcar para o país. Entre estes estavam um para o TFA e dois para o Estado do Pará.
- Os funcionários do mês: Walter James Mainard / Raimundo da Costa Leite - o "17".
- Escola de Civismo: sobre o Escotismo em Serra do Navio.
- ICOMI colabora com Censo Escolar.
- O craque do mês: Mário Miranda - "Piston" (jogador do Santana).


Imagens selecionadas da revista:

 Professor Aloísio Magalhães, autor do símbolo escolhido para a ICOMI.
 Um grupo de crianças de Vila Amazonas, dando mostras
de sua inclinação para a arte teatral.
Professora Eni Zanconti de Azambuja, que durante dois anos (1962-1963) pertenceu ao magistério da ICOMI no Amapá, ensinando às crianças da Escola Primária de Vila Amazonas.
 Solenidade de hasteamento da bandeira em Vila Santa Izabel (Oiapoque).
Vista do porto de Calçoene, município abordado nas edições 15 e 16.

domingo, 22 de abril de 2018

Curiaú: sua vida, sua história (Sebastião Menezes da Silva, 2001)

Mais uma do acervo da Biblioteca SEMA em Macapá. Obra sobre as origens do Curiaú, mostrando a história dos primeiros moradores, genealogia de algumas famílias e breve relato sobre pontos importantes (educação, costumes, lazer, causos, etc), finalizando-se em considerações sobre transformações e perda de identidade que o local vem sofrendo. Sebastião Menezes da Silva conta essa história em um resgate de tradições para que não sejam esquecidas pelas gerações. É um registro de memórias, de leitura rápida (apenas 34 páginas), com informações culturais em apresentação resumida sobre o Curiaú.


Francisco Inácio, escravo de um casal africano, descobriu o Curiaú há cerca de três séculos. Sebastião Menezes, com esta obra, redescobre a comunidade negra, deixando às novas gerações o registro da história, dos costumes, do folclore e das tradições que aos poucos estavam se perdendo com a modernidade.
É, sem dúvida nenhuma, um importante trabalho de pesquisa que deve ser utilizado pelas redes estadual, municipal e particular de ensino, que agora têm a seu dispor mais um capítulo da história do Estado do Amapá.
Em linguagem acessível, assimilada por qualquer pessoa que tenha a curiosidade de saber um pouco mais como surgiu o chamado quilombo amapaense, a obra impressiona pelos detalhes, o que mostra o tempo e a paciência que o autor dispôs para realizá-la. Sebastião Menezes, com muito tato e dinamismo, leva o leitor a um passeio pela comunidade do Curiaú.

(Joseli Dias - Prefácio)

DISPONÍVEL PARA CONSULTAS NA 
BIBLIOTECA PÚBLICA ELCY LACERDA
E BIBLIOTECA AMBIENTAL DA SEMA-AP.