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terça-feira, 17 de janeiro de 2012

LENDAS DO AMAPÁ - Lenda waiãpi do fim do mundo

Mairi, a lenda do fim do mundo  

Os Waiãpi são um povo   de língua e   tradição cultural  tupi-guarani que vivem nos dois lados da fronteira que separa o Brasil da Guiana Francesa. Originários da margem direita do rio Amazonas, os Waiãpi habitavam no século XVII a região do baixo Xingu, ocupada também pelos índios Juruna, Kuruáia e Pacajá. Com a colonização portuguesa, no século XVIII eles migraram gradativamente para as regiões onde ocupam atualmente, para manter a sua cultura secular e sua sobrevivencia como etnia. De todos os povos indígenas da Amazônia, os Waiãpi são um dos raros que ainda se mantêm pouco aculturados, guardando suas tradições e costumes que mereceram estudos da antropóloga belga Dominique de Galois, que registou a presente lenda.
Fotos de Dominique Gallois (laterais) e da Exposição "Povos Indígenas do Brasil" (centro)
"Nós somos Waiãpi. Nós moramos no Brasil, no estado do Amapá. Vivemos dentro da Terra Indígena Waiãpi, com 604 mil hectares. A demarcação começou em 1994 e terminou em 1996. Cada grupo Waiãpi mora em uma aldeia separada. Alguns moram muito longe, outros moram perto. Nós temos 13 aldeias, e os Waiãpi ainda vão aumentar. A vida waiãpi é diferente da vida do branco. Nós usamos tanga, urucum, flecha e colar de miçanga. Nossa alimentação também é diferente. Comemos beiju e carne de caça - por exemplo: caititu, veado e anta. Nós não perdemos a nossa bebida. Ela é feita de mandioca. Nossas aldeias são diferentes das cidades. Nós derrubamos poucas árvores para fazermos as roças."
Texto do livro "Artesanato Waiãpi" do CTI - Centro de Trabalho Indigenista

Índias Waiãpi - Década de 80 
(autor não identificado)
 Origem - Esta estória foi contada há muitos séculos pelos antepassados dos Waiãpi, ancestrais de seus ancestrais, estória que continua viva e vem sendo repassada de geração em geração, pela tradição oral.
      Conta a estória que o herói criador Ianejar, criou os primeiros Waiãpi, homens grandes e ornamentados com um cocar de enviras até os pés, inclusive os brasileiros e os franceses. A população era grande, que mais parecia árvores na floresta, "não podiam nem andar". Cada povo seguiu seu destino, procurou novas terras, sempre se fixando às margens dos rios. Os brasileiros foram para o seu lugar e os franceses para o outro lado do rio, somente os Waiãpi permaneceram naquele lugar. O êxodo ocorrido naquele período não diminuiu entretanto a população, pelo contrário, a cada dia aumentava mais - a floresta já não comportava tanta gente - os tempos eram difíceis, a estiagem castigava a terra, os rios e igarápes estavam secando e a flora e a fauna encontravam-se em completa destruição. Resolveu então Ianejar queimar a terra.

Construção - O criador de tudo e de todos reuniu o Kae'te e ordenou que todos os Taimiwer (antepassados dos Waiãpi) fossem para a floresta em busca de madeira e argila para a construção da Casa de Argila onde se abrigariam todos aqueles escolhidos, abastecidos de água e alimentos, numa preparação para a queima da terra ordenada por Ianejar. Assim foi feito. Os homens da floresta levaram dias e dias trabalhando na tiragem de madeira e argila e começaram a construção de uma grande casa redonda, toda em madeira, recoberta de argila, a qual deram a denominação de Mairi, que significa fortaleza em tupi-guarani. Nessa estrutura, entrelaçaram a madeira, espalharam a argila e subiram paredes arredondadas e bastante grossas para não queimar, e na parte mais alta, uma torre bem alta e arredondada com uma abertura no meio de onde pudessem enxergar até o final da terra.

Cataclismo: fogo e dilúvio - Não chovia e a terra estava seca. Secaram os pequenos igarapés, os pequenos rios e os grandes também. Começaram a morrer os peixes e os pássaros. Ianejar volta para seu povo e, na sua viagem de regresso, encontrou o Antiguaçu, pássaro encantado mitológico que soltou urn canto triste ao aproximar-se do criador, anunciando a realidade do povo Waiãpi: "Secou, secou ... ". O pássaro entregou a Ianejar um Pararê, papel mágico que mostrava o futuro, através do qual pôde ver a terra queimando, sendo arrasada pela fúria do fogo.
      Ianejar ordenou então que os escolhidos fossem para Mairi, levando consigo todos os seus pertences, indumentárias de festas, flautas do turé, seus potes com água e animais de criação para a garantia da alimentação naqueles momentos de dificuldades, principalmente a manutenção das espécies no futuro: cotias, pacas, mutuns, porcos, jacarés, jabutis, araras, papagaios, galinhas, macacos e todo o tipo de animal da floresta. Todos se instalaram como puderam, dividindo o espaço com os animais, em total desconforto. Alguns acreditavam que a comida era insuficiente e resolveram ir até a roça com a finalidade de trazer mais alimentos: mandioca (para a feitura de beiju e farinha), bananas e pupunhas. Uns foram e voltaram e outros nunca conseguiram retonar.
      O tempo urgia, o momento anunciado se aproximava e então Ianejar fechou todas as entradas da Mairi. Os que chegaram a tempo ficaram.
      O fogo se alastrou com rapidez, a ventania era intensa, chamas gigantescas, labaredas monumentais, varrendo rapidamente tudo o que encontrava no chão e no céu, queimando por todos os lados e em todas as direções, cercando totalmente a casa de argila. Os escolhidos jogavam água uns nos outros e molhavam o chão para evitar a queima dos pés. A fumaceira era intensa, não se enxergava um palmo diante do nariz e o calor era quase insuportável. A queimada durou a noite toda. Do alto da Mairi podia-se observar o mar que o fogo produzia. A argila queimou e ficou vermelha. Ao meio-dia o fogo passou pela Mairi e continuou queimando, seguindo seu caminho devastador.
      Ianejar olhou novamente no Parerê acompanhando a devastação até que o fogo caiu no buraco do final da terra. Quando o fogo passou, a casa esfriou. Mairi continuava imponente e todos os que nela se encontravam estavam salvos e prontos para dar continuidade a espécie. Pouco a pouco voltaram a si e uma nova realidade se preparavam para enfrentar. Ianejar corre novamente os olhos no Parerê, momento de muita tensão. Espantado, comunica aos sobreviventes que o pior ainda estava por vir e anuncia a chegada de um dilúvio, para lavar e purificar a terra.

Dilúvio - Ianejar ordenou a saída de todos os que ocupavam a Mairi e indicou urn lugar bem alto, acima do Paraná (grande rio), para que lá todos fossem e levassem os animais e pertences juntos, pois estava para começar o grande dilúvio, que viria para lavar a terra que queimara, fazendo a limpeza e purificação. Mairi esfriara e se tranformara em uma Tucuruoka (casa de pedra).
      O dilúvio se aproxima, a água é grande, com altas ondas, a correnteza muito forte e arrasta tudo o que encontra. Mairi, cercada por todos os lados de água, fortes correntezas, não suporta, é levada pelas águas até o final da terra onde, segundo a estória, ninguém havia visitado. O povo chorou a perda de Mairi, levada pelas águas para um lugar muito distante, onde as águas secam, onde é o final da terra.
      No lugar onde havia sido ordenado que todos se acomodassem, nada existia, razão pela qual Ianejar criou o primeiro animal, o tamanduá. Depois todos os animais até hoje existentes; criou os igarapés, rios e mares, as florestas, as matas e cerrados e ensinou os escolhidos a construírem suas casas, a fazer comida (farinha de mandioca), a fazer o caxiri (bebida de mandioca), a dançar e tocar flauta.
      Com o cenário totalmente modificado e pronto para a realização da vida, os Waiãpi foram deixados pelo criador, com um único pedido: para que crescessem e se multiplicassem. A vida tinha sua rotina, viviam da caça, da pesca e do plantio da mandioca. O resultado foi comemorado durante vários dias, cantando e dançando, até que tudo se acabasse e houvesse a necessidade de sair em busca de tudo que era novo .


Reencontro da Mairi - Certo dia, Tamo Kuresisi (ancestral Waiãpi) ficou a observar o infinito do horizonte, imaginando se o mundo se resumia até onde a vista alcançasse; largou tudo e resolveu visitar a borda da terra, beirando os igarapés, os rios, as praias do grande rio que denominavam de Paraná (que seria o rio Amazonas). Ele tinha medo de andar, pois o movimento de ida e vinda da maré lhe assustava. Observou que não tinha nada além da água, só as borboletas que, com suas pinturas faciais, eram as donas do final da terra amarrada com cipó ao final do céu, assim irnaginavam os índios. As borboletas eram responsáveis pela substituição daqueles cipós que apodreciam, elas o trocavam e amarravam novamente. Aí então Kuresisi ficou preso na seiva da Maçaranduba e percebeu que a borda da terra era muito dura, porém, mole depois dela.
      Sempre fugindo da grande maré, Kuresisi resolveu conhecer o que havia além do Paraná, desta feita levado pelo Beija-flor, pássaro que tem uma enorme capacidade de voar grandes distâncias. Atravessou o grande rio e pousou em terras dos brasileiros, onde, espantado, reconheceu nas margens do rio Amazonas a Fortaleza de São José de Macapá, como sendo a Mairi construída pelos ancestrais de seus ancestrais, em obediência a Ianejar, que foi arrastada pelo dilúvio até aquele lugar.
Encontrou o forte tomado pelos brancos, fazendo dele morada de soldados e cárcere de índios escravizados. Observou o sofrimento de seus irmãos e da raça negra que não conhecia até então. Retornou para a tribo conduzido pelo beija-flor e contou o que viu para os Waiãpi, que desde aí passaram a temer e evitar a presença do homem branco.
Fonte do Texto: Revista Amazon View - Ano VI
Edição 44 / 2002