As postagens desse blog são em caráter informal e de apego ao saber popular, com seu entusiasmo, exageros, ingenuidade, acertos ou erros.

terça-feira, 26 de julho de 2011

A Festa de São Tiago (Mazagão Velho - 2011)

Mazagão Velho situa-se a 36 km da sede do município (Mazagão Novo), às margens do Rio Mutuacá.
Através desse rio chegaram os portugueses da Mazagão africana, fundadores da Vila de Nova Mazagão em 1770. O objetivo era abrigar famílias em decorrência de conflitos políticos e religiosos no Marrocos. Quando as coisas apertaram lá, os mazaganenses retiraram-se para Portugal, porém, devido manobra política de colonização, vieram parar na Amazônia.

A festa em Mazagão  celebra façanhas e bravura que remontam ao período no Marrocos, em que teria ocorrido a vitória dos cristãos sobre os mouros. Em verdade, os portugueses tiveram que sair às pressas da Mazagão africana, ao serem expulsos pelos marroquinos e estarem em situação de desamparo em relação a coroa portuguesa.

El-Jadida, a antiga Mazagão africana no Marrocos, tombada como patrimônio da humanidade em 2004.

O deslocamento dos portugueses para a Amazônia foi um fato épico para o que enfrentaram. 
Trajetória do deslocamento das famílias de Mazagão (Mapa reproduzido por Milena Duarte e Rúbia Nogueira, na Revista do CESVASF Nº 04/2005).

Ilustração de Luis Porto. Eles não vieram direto. Passaram por Lisboa, esperarando cerca de 6 meses  para atravessar o Atlântico até Belém (tempo em que lhes seduziram com histórias heroicas  e idealizaram  política de ocupação da Amazônia). Na cidade paraense, as famílias aguardaram mais um tempo  para o destino final  em Nova Mazagão, pois a cidade estava ainda sendo construída.

O que será que pensavam? Encontrar uma cidade como as que estavam acostumados?
O deslocamento para Mazagão foi feito em canoas e durou cerca de 2 semanas. Imagina aquelas embarcações atípicas para os portugueses entrando no rio Mutuacá, um curso estreito, com biodiversidade desconhecida... Visão de pássaros, árvores, quem sabe macacos pulando e acompanhando as embarcações... A ariramba voando furtiva à flor da água com o rebuliço característico, piados diversos na mata... Foram 15 dias nas canoas em odisséia de muita expectativa. E pensar que a maioria dos amapaenses nunca foi em Mazagão Velho... (A ilustração é do livro "Mazagão" de Laurent Vidal)
Este é o japim com seus ninhos característicos, numa foto que tirei de uma mangueira bem perto da igreja em Mazagão. São barulhentos e chegam a bicar quem fique perto de seus filhotes. E se tivessem bicado alguns dos portugueses na chegada... Seria um engraçado e inusitado cartão de visitas ao povo da terrinha.
Laurent Vidal disse algo interessante em seu livro:
"E, de repente, apavorados pela passagem da canoa, os japins, pássaros delicados que vivem em ninhos suspensos, voam e formam algo semelhante a um enxame amarelo e preto que turbilhona acima da água. A vegetação densa também parece brincar com as formas para inventar figuras mais frequentemente estranhas que familiares. Como não imaginar esses viajantes involuntários, angutiados, petrificados de medo diante desse novo mundo que, pouco a pouco, vai se abrindo diante deles?"
A passagem dos portugueses por essas bandas não foi nenhuma maravilha. A vinda foi articulação e manobra  política do Marquês de Pombal (influente político na corte portuguesa) e de Mendonça Furtado (Governador do Grão-Pará) para a ocupação de áreas desabitadas na Amazônia, onde algumas vilas foram criadas, entre elas Nova Mazagão. Ressalte-se também que Pombal e Furtado eram irmãos. Na foto ruínas da antiga igreja (Imagem de helidapennafort.blogspot.com ).

Carta Topográfica da Vila de Mazagão (Acervo da Mapoteca do Itamaraty) Você identificou Mazagão Velho? Está na parte superior do rio bem no meio do mapa.
Em pouco tempo Nova Mazagão entrou em decadência, contribuindo para isso:
- O descontentamento de muitos portugueses que se mudaram para cá e encontraram condições não favoráveis (as casas  por exemplo, eram muito precárias e em número insuficiente para abrigar todas as famílias, o que gerou disputas)
- A falta de incentivos da Província
- A produção agrícola decadente (a cultura do arroz não se desenvolveu bem, gerando escassez de alimento e não suprindo todas as necessidades... Fome!!).
- Falta de mão-de-obra para o trabalho na vila
- A insatisfação com o lugar por considerarem inapropriado para a localização da vila (muitos logo manifestaram desejo de ir embora para Belém, outras paragens ou voltar para Portugal). 
- A proliferação de epidemias (oras... num clima quente e úmido como este, em que pululam mosquitos e os mais diversos insetos, surgiram surtos de málária, febre amarela e há registros de cólera. Tudo isso resultou em muitas mortes).
Essas razões fizeram com que os portugueses migrassem, permanecendo na maioria a população negra. Por isso que muitos acreditam ser aquela área remanescente de quilombo. 
Paisagem natural da bacia do Rio Mazagão (Imagem do livro "Mazagão, realidades que devem ser conhecidas", do IEPA). Aqui, no que pareceu um lugar próspero, desenvolveram-se histórias com aflição, morte e dificuldades para os portugueses. Sobreviveu a herança cultural na festa.
Igreja em Mazagão, construída em 1935. (Foto do livro Mazagão", do IEPA).   Em frente a ela passa a rua Senador Flexa, onde são encenadas as batalhas. Da igreja da época dos portugueses só restaram ruínas. Veja outras fotos da cidade nestes links:
- josealbertostes.blogspot.com
- Flickriver
Vários barcos pequenos de comunidades próximas chegam também  pelo Rio Mutuacá para os festejos.
Os pioneiros vieram em canoas parecidas a esta. Haja braço meu filho, para navegar com esse batelões! (A ilustração é do livro "Mazagão" de Laurent Vidal).
Visão em frente à igreja, destacando-se o Rio Mutuacá. Existe lenda local de certo padre desonesto que lançou uma maldição, dizendo que o rio secaria. A vazão em determinadas épocas diminui bastante, mas nada que o possa ter extinguido, até hoje... Em frente a igreja encontramos o busto de dois padres. Um deles é o Pe. Júlio Maria Lombard (sacerdote extremamente conservador e radical, entrando em conflitos com a cultura popular e evangélicos em Macapá).
A igreja tem muitas imagens, até pelas paredes, com destaque para São Tiago e São Jorge.
Mazagão Velho é uma cidade pequena, além da igreja, tem entre os pontos mais visitados a pracinha, o balneário no Rio Mutuacá (tudo muito modesto) e as ruínas da antiga igreja ,  além de outras festas religiosas. O maior movimento é na duração dos festejos religiosos.  A separação entre Mazagão Velho e Mazagão Novo é um dos motivos do pouco crescimento. Fato motivado por:  
- epidemias que teriam assolado os primeiros colonos (febre amarela, cólera, malária); 
- a transferência da sede para um novo povoado, por motivos políticos (segundo a história, uma autoridade política sofreu um atentado em Mazagão Velho, resultando na morte de sua filha). Essas informações foram narradas por locutores na festa.
Com a formação de Mazagão Novo e sua homologação como sede municipal, Mazagão Velho ficou em subdesenvolvimento.  A estrada para lá ainda não foi asfaltada e o crescimento tem acontecido lentamente. Estive lá em 1993 e muita coisa permanece do mesmo jeito. 
Olha aí a estrada que vai para lá (cerca de 36 km de Mazagão Velho para Mazagão Novo). Alguns trechos ficam precários com as chuvas e  o trânsito acentuado durante a festividade. Será que tem que se esperar mais uns 200 anos para receber um asfalto? Olha que a festa é a principal e a mais tradicional deste Estado! Todo ano vários políticos vão, disputam espaço para conduzir imagens na procissão e os locutores não cansam de bajular. Esse ano (2011) foi lá também a Ministra da Igualdade Social. Que as coisas também aconteçam para aquele povo, conforme a realidade que pede intervenções e melhorias.
Aqui uma reportagem da Folha de Mazagão (Maio/Abril - 2011)
sobre as condições da estrada.
 Outro recorte (Jornal do Servidor - 04 a 14 de julho/2011) sobre as condições da estrada e o jogo de interesses
Se os interesses existem numa festa, imagina o quanto em uma guerra!
A religião muitas vezes é máscara para ambições. Se os interesses divinos fossem celebrados, os homens estariam festejando o amor, o perdão, a paz e a conciliação entre os povos. 
 E mais um recorte de jornal ("A Gazeta", de 27/07/2011). O texto é da coluna do Olimpio Guarany.

Olha aí os políticos com as imagens... Governador, senador, deputada e outros. Cada um faça o que queira, mas o que realmente importa são benfeitorias ao município, não demonstrações religiosas.
Foto de Márcia do Carmo. A inauguração da praça ocorreu nos festejos deste ano (passou por uma reforma e melhorias por iniciativas do GEA). Notícia do Jornal "A Gazeta", de 27/07/2011: Prefeito de Mazagão afirma que governo transformou evento em um grande palanque político.

O episódio é uma ilustração dos interesses humanos,  o real significado da batalha festejada, em que mouros e  portugueses usavam o nome de Deus para dar vazão a sua sede de conquistas e ambições. Não foram cristãos como Cortez e Pizarro quem levaram o " cristianismo"  aos astecas, maias e incas? E com que interesses facções radicais do islamismo forçam a existência de regimes autoritários e repressores? Em ambos os casos, isso são projetos divinos à humanidade? Quero apenas dizer que antes da religiosid existiram interesses humanos que a usaram como ferramenta para seus objetivos.
É nessa pequena vila histórica que desde 1777 tem sido realizada a Festa de São Tiago. (Foto do Jornal "Folha de Mazagão", de 28/02/2011). A via principal que entra e corta a cidade é a Travessa N. Sra. da Assunção.
 Vista aérea sobre o rio Mutuacá em Mazagão Velho. Foto do daltomartins.blogspot.com

Em 2011 completaram 234 anos de festejos no município.

Na foto o pórtico inicial da cidade.
Tradição trazida da África em que os moradores da região, através de teatro a céu aberto, recontam a luta travada entre mouros e cristãos na costa africana.


Segundo a lenda, o guerreiro Tiago teria aparecido como soldado anônimo e lutado ao lado dos soldados cristãos (portugueses), ajudando na vitória final.

Eram  cerca de 20 mil soldados portugueses (os cristãos) contra 150 mil soldados mouros (mulçumanos). Essa informação foi obtida na festa, durante as narrações. Pelo menos era o que os locutores enfatizavam na descrição dos fatos.

Cartaz de 2011


 São Tiago (Mata-Mouros), o celebrado na festa.
 Na guerra entre mouros e cristãos, dizer que a luta - por qualquer dos dois lados - era em nome de Deus, foi uma estratégia ideológica de incentivo às batalhas pelas lideranças de ambas as partes. O real significado era obter a posse da terra, com todas as vantagens e patrimônios que pudessem oferecer. Nossa nação é testemunha do saque efetuado pelos portugueses séculos seguidos e da própria incoerência do que chamavam de catequização: primeiro enviaram os  jesuítas para a propagação da ideologia cativa da autoridade religiosa e coroa; posteriormente, quando o trabalho dos mesmos não correspondia mais a seus interesses, trataram de expulsá-los sumariamente. Essa ideologia de estimular uma guerra  sangrenta em nome de Deus, foi algo evocado na época das cruzadas, onde figuras  cristãs como Tiago (segundo  o que pesquisei esse Tiago seria um dos 12 discípulos de Jesus, mas precisamente o irmão de  João e  assim um dos 3 mais próximos de Jesus, alguém que ouviu e viu o real significado do cristianismo ao lado de Jesus) foi transformado pela ideologia  humana em um guerreiro mata-mouro  e repassado a idéia  pelos líderes a seus comandados (existem divergências católicas quanto a origem deste santo). Ele teria aparecido como soldado anônimo em um cavalo branco e lutado e matado muitos no campo de batalha. Um incentivo às tropas enfraquecidas para a furiosa batalha e massacre, entre homens que não se conheciam, mas o faziam em nome daqueles que se conheciam, mas não se massacravam (não lembro o nome do autor desta frase tão verdadeira e muito adequada aqui). 
Os que professam o nome de Deus devem ter como expressão maior disso o amor ao próximo. Qualquer um que assim não o faça, não exprime o pensamento divino e sim uma ideologia de interesses a que está influenciado e cativo. Deus é amor! Deu exemplo na cruz disso e chama os povos para a comunhão. Infelizmente, assim como idos passados, a manipulação dos homens gera o que pode haver de pior na humanidade, o egoísmo, amor a seus interesses. Isso é o que gerou guerras como esta que estou mencionando e os mesmos motivos tem gerado as atuais. Observe que a religião muitas vezes é só um plano de fundo e máscara de interesses.  
Tudo o que falei da guerra são conjecturas, o que há de real é que a batalha, como é representada na festa, nunca existiu e nem as personagens glorificadas conforme o relato. É só uma tradição.

Para refletir.
Este São Tiago guerreiro, muito diferente do Tiago amoroso e evangelista (discípulo de Jesus) é também chamado de Mata-Mouros. Frequentemente é mostrado em um cavalo branco, com a espada em punho e a espezinhar os mouros sob as patas de seu cavalo. Uma propaganda sub-liminar de incentivo à guerra e, ao mesmo tempo, ter uma idéia pré-formada sobre os mouros. Esse é o Tiago que interessava aos líderes e senhores da guerra. Esse tipo de propaganda é algo comum ainda hoje. Lembra, por exemplo, da época da ditadura militar... Quantas idéias eram fomentadas, cridas e disseminadas, sem que se tivessem um conhecimento mais apurado.

Esta é uma imagem de Tiago sendo mostrado em sua postura de herói e vencedor. Será que sob estes ornamentos estão também representados os mouros subjugados e sendo mortos sob as patas do cavalo? A representação mundial e secular do santo assim o faz, ou fazia, e, desta forma, se assim for, creio mostrar um quadro de glorificação de ideais humanos... entronizado dentro da igreja. De qualquer forma, se não está presente fisicamente na imagem, simbolicamente está, pois não é para abençoar que a espada originalmente está sendo empunhada. (A foto é do blogdodinizsena.blogspot.com). Essas são minhas opiniões. Apenas tento entender. VOCÊ COM SUAS CONCEPÇÕES, PROCURE ENTENDÊ-LAS COMO AQUI TAMBÉM TENTO FAZER COM AS MINHAS. POSSO ESTAR ERRADO, MAS TENTO ENTENDER.

Hoje (10/08) fui em algumas lojas de imagens em Macapá, queria ver como é disponibilizada a imagem, mas não as encontrei e segundo me falaram nunca receberam nesta forma de cavaleiro. Afinal não deixa de ser  hoje algo politicamente incorreto. Na igreja, local onde se deve propagar o amor de Deus, não estaria sendo venerada a imagem de um assassin? Mata-mouros é o nome que tem a séculos, desde antes do descobrimento do Brasil. Há 3 formas como é representado em imagens: como apóstolo (com um livro aberto na mão e cajado), como peregrino (forma mais comum, também com um cajado, livro e chapéu) e o Mata-mouros (não encontrada pelo impacto da imagem e as cabeças decepadas e mouros mortos tem sido substituídos por flores). Em verdade, no que apurei, existe o misticismo popular e o oficial na igreja, que nem sempre andam juntos, no contexto de tradições populares. Veja aqui uma postagem muito interessante sobre esse assunto "Os nomes de São Tiago"  de Clinete Lacativa.
Este é Alexandre o Grande, o mais célebre conquistador da história antiga. Sua figura representa  um ideal de líder militar aclamado entre os exércitos de todo o mundo.  Sua figura de guerreiro vencedor transmite um ideal a seus seguidores. Alguma semelhança? 

Encontramos no livro de Apocalipse a referência a um cavaleiro montado em um cavalo branco como um vencedor:
"E olhei, e eis um cavalo branco; e o que estava assentado sobre ele tinha um arco; e foi-lhe dada uma coroa, e saiu vitorioso, e para vencer." (Apocalipse 6:2)
"E vi o céu aberto, e eis um cavalo branco; e o que estava assentado sobre ele chamava-se Fiel e Verdadeiro; e julga e peleja com justiça." (Apocalipse 19:11)
Alguma semelhança? Você conhece uma história de um cavaleiro desconhecido, montado em um cavalo branco a guiar à batalha um exército e a devastar o inimigo numa empreitada acreditada como interesses divinos? 

ESSAS SÃO MINHAS PERCEPÇÕES, TODOS TEM DIREITO DE ACREDITAR NO QUE QUIZER, NÃO SOU DONO DA VERDADE.  MEU OBJETIVO É APENAS TENTAR ENTENDER E  PARA ISSO BUSCO TUDO QUE, NO MEU ENTENDIMENTO, POSSA ME LEVAR A ISSO. O QUE VOCÊ ACREDITA É DE SUA ESCOLHA, ASSIM COMO TENHO TAMBÉM AS MINHAS. 
Folder deste ano (2011)
Material promocional coletado na festa (2011)
Este é um folder mais antigo (2004)
Balneário cheio de gente. Veja como o rio é estreito. Fico imaginando isso tudo cerrado e cercado de mata virgem na época da chegada dos portugueses... Foi um feito admirável a navegação e chegada nestas terras!!!


Imagens do balneário. 
Ei mocinha!!! Cuidado para não quebrar o brinquedo das crianças!!!!
Os festejos vão de 16 a 28 de julho, data em que teriam acontecido as batalhas. Os dias 24 e 25 são os principais, com:
O Baile de Máscaras (dia 24)
- Encenações dos Episódios da Batalha (dia 25)
Entre esses dias se desenvolvem festas populares com músicas pop, pagode, axé, tecnobrega  (essas coisas que fazem sucesso aqui no Norte) e o povo concentra-se principalmente no pequeno balneário às margens do Rio Mutuacá.

Foto de Ronne Dias
No dia 24 há a "Entrega dos Presentes" e o "Baile de Máscaras", relembrando a vitória dos cristãos sobre a cilada dos mouros. Estes haviam proposto uma trégua e oferecido presentes em forma de iguarias aos capitães cristãos. A comida estava envenenada e os cristãos confirmaram a suspeita ao jogar  uma parte aos animais do inimigo. Outra parte guardaram para uma contra-ofensiva. Nesse baile somente os homens participam mascarados.

Foto do amapadigital.net
Os mouros organizaram um baile e convidaram os soldados cristãos a participar e mudar de lado. Os que aceitassem deveriam ir de máscaras, para não serem reconhecidos por seus superiores. Os cristãos compareceram mascarados, levando o que havia sobrado da comida envenenada. 

Em meio a bebedeira os mouros comeram da comida envenenada, resultando na morte de vários, entre elas de seu líder maior: o Rei Caldeira. 

O filho do Rei Caldeira, denominado Caldeirinha, assumiu o trono como rei mouro. Esta é a razão de encontrar-mos a figura de um menino na procissão da manhã do dia 25.

 O baile aconteceu por volta das 21:30h. 

Veja aqui um trabalho acadêmico específico sobre o Baile de Máscaras:
(Ronne F. C. Dias - Universidade Federal de Góias / 2009)
O dia 25 e o ápice da festa, ocorrendo:

- Pela manhã: a procissão
- Ao meio dia: 03 passagens do "Bobo Velho"
- A tarde: as encenações das batalhas (cavalhadas)
Este folder é da programação em 2011 (encontrei no blog de  fabricioflexa.blogspot.com)
A procissão dá a volta na cidade e termina na Igreja de N. Sra. da Assunção. Além da idolatria a São Tiago e São Jorge, segue acompanhada dos cavaleiros cristãos e mouros, também das personagens Atalaia, Tiago, Jorge e o Menino Caldeirinha. Alguns políticos do Amapá aproveitam também para ir no cortejo (governador, deputados, senador e secretários).
Os cristãos (portugueses) estão de branco e os mouros (mulçumanos) de vermelho.
No trajeto, muitos devotos dos santos e tradições.
Chegada da procissão na igreja.
Os cavaleiros Jorge e Tiago preparam-se para a entrada na igreja.
...Entram com cavalo e tudo, conduzindo as imagens. O padre recebe-as e faz uma breve celebração.
Entrega das imagens. A pequena igreja fica lotada.
Ao meio-dia o Bobo Velho faz suas 03 passagens, sendo apedrejado no trajeto. Claro que o apedrejamento é simbólico e só é permitido atirar bagaço de laranja. Ih!!! É um fuzuê danado, com muitas vaias! O figurante, que não é nada bobo, vem todo protegido e a polícia é alertada. O cidadão passa pela rua na frente da igreja e dá a volta pela rua da praça. A garotada se diverte e corre para atirar-lhe laranjas nas duas ruas. O locutor enfatiza para arremessar só no cavalo. Oras... Que nada.... Acertei uma laranja bem na costela do tal bobo velho na 2ª passagem. Toma-te!!! Ah! Mas é tudo bagaço de laranja e não exagerei na dose!!  Eu lá vou acertar o pobre do cavalo, que nada tem a ver com nossas loucuras... Deu prá ver que o figurante sofre bastante e, às vezes, é substituído antes de completar o trajeto. Antes o Bobo Velho  usava um capacete artesanal na encenação. Agora, por medida de segurança, usa um capacete bem reforçado de motociclista, pois recentemente atiraram-lhe uma pedra, quebrando a cabeça. Algo lastimável!
O "Bobo Velho" representa um espião mouro que entrou no acampamento dos cristãos ao meio-dia, quando imaginava estar os cristãos desatentos. Os cristãos perceberam que o Bobo Velho era mais uma trama dos mouros e deixaram-no se aproximar. Quando ele chegou perto, apedrejaram-no jogando qualquer objeto que encontravam a seu alcance, que desesperado corria assustado.

(Foto do Jornal "Folha de Mazagão", de 30/01/2011).


A tarde (a partir das 15h) começam as cavalhadas, a encenação das batalhas. As apresentações ocorreram em 06 atos e a população se concentra principalmente na frente da igreja. O cavaleiros (mouros e cristãos) se posicionam no extremo da rua Senador Flexa e partem a galope algumas vezes.As cenas (atos) são:
1- A descoberta do Atalaia
2- Morte do Atalaia
3- A armadilha (emboscada feita pelos cristãos)
4- A captura e vendas dos meninos cristãos e a partilha do dinheiro entre os mouros
5- Troca do corpo do Atalaia pela bandeira moura
6- Batalha entre Mouros e Cristãos, tomada do estandarte dos Mouros e batalha final
Na Cena 1 o Atalaia (um espião cristão) foi enviado ao acampamento dos Mouros e conseguiu apoderar-se (roubar) a bandeira dos inimigos. Ele foi descoberto, perseguido e ferido. Mesmo assim consegue aproximar-se do acampamento cristão, dá o alerta e joga o estandarte  para os seus. Na foto a bandeira já está em posse dos cristãos. Os cavaleiros na frente são: Jorge, Tiago e o Atalaia.
É mais ou menos assim o desenrolar da ação: partem 2 cavaleiros (mouro e cristão) de seus acampamentos (lados opostos da rua) se encontrando na frente da igreja, onde  fazem um desafio de guerra. Retornam então a suas fileiras e em seguida parte um cavaleiro cristão (o atalaia) para espionar as tropas mouras. O cavaleiro vaga entre os mouros e em seguida vem no galope com a bandeira roubada. Os mouros o perseguem tentando recuperar, mas já era, ele entrega aos cristãos. Os mouros frente à tropa dos cristão retornam em desabalada carreira. Fim da cena. Tudo vai sendo narrado pelo locutor com o apoio de estudiosos da festa.
Na Cena 2 o Atalia é morto e seu corpo é carregado para o acampamento dos mouros. Na história original a morte do Atalaia ocorre no final da primeira cena, quando é alcançado já muito ferido, após jogar a bandeira aos seus. Para dar maior destaque, a cena é contada neste segundo ato.
O Atalaia faz novamente um desfile pela rua, vai ao encontro dos mouros e retorna à frente da igreja. Neste momento é cercado por um grupo de mouros mascarados (uma estratégia para assustar os cavalos dos cristãos) e um toque de tambores e corneta é soado. Os narradores vão glorificando o feito do Atalaia e tiros são disparados.  A cada rajada um mascarado vai estourando um líquido na roupa branca do cristão, simulando os projéteis. O Atalaia ergue a espada, diz algumas palavras (Morra o homem e deixe a flâmula!) e cai do cavalo. Seu corpo é então carregado pelos mascarados em grande júbilo. Primeiro erguem-no e em seguida colocam-no na garupa de um cavalo, retornando a suas fileiras. Fim da cena. Na história o Atalaia tem sua cabeça decapitada e espetada na ponta de uma lança. Dessa forma, na impossibilidade de exibir sua bandeira, os mouros exibiam então a cabeça do Atalaia às tropas dos portugueses.
Na Cena 3 os cristãos decidem se vingar e armam uma emboscada que dizima uma patrulha moura. Isso enraqueceu muito estas tropas, obrigando-os a planejar alguma estratégia de reabilitação.
Na Cena 4 ocorre o rapto das crianças cristãs e a distribuição do lucro entre os mouros.  

Sugestão de Leitura: 
Mazagão, a cidade que atravessou o Atlântico”
(Martins Fonte, São Paulo - 2008)
Livro de Laurent Vidal
Trata de questões históricas da formação de Mazagão Velho.  
Mazagão, realidades que devem ser conhecidas”
Livro do IEPA
(Esta obra está disponível para download no site do IEPA)
É um diagnóstico sócio-econômico-ambiental do município  de Mazagão. 
Pode ser também encontrado nas biblioteca de Macapá.
“Mazagão Velho - Diásporas Negras, Performance e Oralidade no Baixo Amazonas
(Juruá editora - 2011)
Livro de Geraldo Peçanha de Almeida
Mais um ótimo livro histórico sobre Mazagão.

OBSERVAÇÃO:

Essa postagem tem seus erros históricos e culturais. Viagens minhas nas impressões ao conhecer e tentar entender a festividade.  Conheça você e tenha suas percepções também. É uma festa popular, de longa tradição, com sua ideologia e inspirações.